sexta-feira, dezembro 30, 2005

Dias Exemplares - Michael Cunningham - Gradiva

Há muito que aguardava por mais um livro de Michael Cunningham, após as obras-primas anteriores (por ordem decrescente de preferência, "Uma Casa no Fim do Mundo", "Sangue do Meu Sangue" e "As Horas"). Assim, quando saiu "Dias Exemplares", as minhas expectativas eram demasiado elevadas, tendo sido formada uma opinião injustamente depreciativa.
O livro é dividido em três histórias passadas em Nova Iorque. A primeira história é passada no ínicio da revolução industrial, a segunda na actualidade dos acontecimentos pós-11 de Setembro e a terceira num futuro distante em que alienígenas e autómatos povoam a terra.
Michael Cunningham esforça-se por dar elementos comuns às histórias. As personagens Cat, Simon e Luke aparecem em diferentes corpos e personalidades, sendo dada a cada uma a oportunidade do papel principal. O melhor de Michael Cunninham sempre consistiu na construção de personalidades e exploração das inter-relações, e aqui algumas características repetem-se de história para história, apesar de contextos completamente diferentes, como o facto das personagens sofrerem a perda de alguém que lhes é querido, ou serem sujeitos a algum tipo de discriminação (quer por serem negros, quer por serem extraterrestres ou por serem fisicamente deformados). Outra característica comum consiste na descoberta da beleza em terrenos inóspitos (e aqui entra a estranha tigela que passeia por entre as histórias) e a incapacidade de adaptação à sociedade norte-americana através duma visão anti-globalista e anti-evolucionista. Através das 3 histórias existe um acompanhamento da evolução social e física de lugares comuns de New York (Brodway, Central Park), numa perspectiva muito negativa de um ciclo vicioso de infelicidade crescente em que a única solução encontrada consiste na autodestruição, fuga e ainda o abandono pessoal em detrimento do próximo.
A incontinência poética que atravessa as 3 histórias contrasta com o ambiente pesado, dando às personagens a oportunidade de terem um escape do mundo deprimente, através da escrita de Whitman (Leaves of Grass), o poeta que amou o mundo, a vida e a morte tal e qual como são ("Imenso de paixão, vitalidade e força, alegre, destinada à acção mais livre pelas leis divinas, eu canto o Homem Moderno"). Whitman mostra às personagens a beleza do mundo, tornando-se num refúgio dos seus medos e no alento para a mudança.
A ideia do livro é demasiado ambiciosa, e quem sabe, se fosse trabalhada de outra maneira, originaria o melhor livro de Cunningham. Porém, as histórias soam um pouco a falso, as situações irritam o leitor e as personagens parecem forçadas. Mas é apenas uma opinião de alguém que tinha expectativas demasiado elevadas.

quinta-feira, dezembro 08, 2005


Lunar Park - Bret Easton Ellis - Editorial Teorema

Quando me embrenhei neste livro, um tanto ou quanto contrariada, estava curiosa em como Bret teria evoluido depois das histórias fúteis do mundo de drogas, ricos e orgias dos seus livros do género "Menos que Zero" ou "As Regras da Atracção" (adaptados para cinema, tendo o último dado algum protagonismo a Katie Holmes) ou do escabroso violento/sádico mas no fundo interessante "Psicopata Americano" (com Christian Bale, o novo Batman e antigo menino do "Império do Sol").
Inicialmente, o escritor leva-nos a pensar que o livro é autobiográfico, até porque as personagens principais são ele próprio (Bret), a sua esposa (actriz supostamente famosa e ex-namorada de Keanu Reeves) e seus reais filhos. Qualquer leitor começa a enervar-se profundamente ao pensar no que terá levado a comprar um livro destes e a contribuir para a fortuna dum escritor que não vale nada enquanto pessoa. Quanto às suas capacidades literárias pode-se supôr que apenas teve a sorte de estar no lugar certo na altura certa ao ter a oportunidade de ser um dos primeiros a expôr a futilidade de uma geração sem valores morais, sociais, sem capacidade de planeamento futuro e completamente viciada em cocaína, heroína, xanax, vodka, konoplin, etc etc etc.
Entramos lentamente em contacto com um mundo completamente fútil das celebridades, dando vontade de mandar esterilizar aquela gente para evitar que tenham mais filhos, uma vez que não passam de zombies infelizes que aos 8 anos já estão diagnosticados com uma panóplia de perturbações psiquiátricas gravíssimas, andando tão pedrados como os pais. Até o cão deles anda medicado para a ansiedade.
Bret expõe cruelmente esse mundo, criticando-se de certo modo uma vez que a ele pertence (mesmo sendo e fazendo por ser odiado) e auto-censurando-se pelos fantasmas e perturbações passadas mal resolvidas, que acabam por se materializar e dar corpo a episódios bastante imaginativos e supostamente aterrorizadores.
O melhor do livro escontra-se na auto-exploração da sua personalidade (que se divide entre o "Bret escritor", o "Bret real", o "Bret pedrado", o "Bret-será-que-estou-a-alucinar" e finalmente o "Bret-gostava-de-tentar-uma-família") e na evocação dos fantasmas passados incluindo o reaparecimento de Patrick Bateman, a personagem central do "Psicopata Americano". No fim acaba por se tornar um livro interessante, dando-nos uma perspectiva de uma família disfuncional em que todos se afastam da realidade em procura da "terra do nunca mais". É um livro com piada mas não é essencial e não traz nada de novo.

quarta-feira, outubro 26, 2005

"Amor, Curiosidade, Prozac e Dúvidas" - Lucía Etxebarría - Notícias editorial

Numa Madrid solitária, comparada à Estrela da Morte, encontramos 3 irmãs com personalidade e estilo de vida completamente diferentes, mas muito iguais no que toca à capacidade de ultrapassar os piores momentos das suas vidas, que aparentemente são todos.

Afeiçoamo-nos às 3 personagens, não por compactuarmos com a sua maneira de viver, mas pelo modo com que a autora espanhola nos leva a compreender o íntimo de cada uma. A autora constrói de tal forma as personagens que no nosso subconsciente temos a certeza que elas realmente existem ou então que representam a própria autora em 3 vidas passadas, uma vez que são exaustivamente desvendados e dissecados os seus segredos emocionais, segredos esses que todos nós temos mas que nunca revelaremos a ninguém e provavelmente escondemos de nós próprios.

A beleza deste livro reside no facto de apesar de ser tão deprimente, mostra como cada personagem atinge o equilibrio para manter a sanidade mental e a autoestima num nível razoável.

Apresentando as 3 irmãs:

Cristina, a personagem com mais vivacidade, sensualidade, extroversão, que vive atormentada pelo vazio emocional da sua vida, cuja banda sonora inclui uma famosa música dos Joy Division.
"When the routine bites hard, and the ambitions are low, and ressentment rides high, but the emotions won't grow... Do you cry in your sleep all your failings expose? Era a voz de um morto (Ian Curtis). Amei a sua solidão e amei o seu orgulho. Get a taste in my mouth as desperation takes hold. It is something so good just can't function no more...? O amor vai separar-nos. Mas eu não precisava de ouvir aquela canção desoladora e dura, demasiado bela e demasiado real, aquela aniquilação de esperança, aquele retrato a preto e branco do prazer e do tormento, aquela afirmação de impotência perante um mundo sem respostas que penetrava na minha carne com a mesma asséptica certeza com que o faria um bisturi de um cirurgião, para saber o que soubera desde criança, desde sempre: o amor destrói. Profundo, cortante, dolorosamente."

Ana, fada-do-lar saída das revistas de etiqueta, que vive em depressão sem causa aparente, tomando Prozac para dormir e anfetaminas para acordar.
"Alguém me podou a mim, penso, e por isso sou como sou, ordenada e com bom aspecto. Nenhum ramo cresceu onde não devia. Sou um arbusto podado que cresceu devido às indicações dos outros. Uma tesoura levou à sua frente as gemas rebeldes, os futuros botões, as rosas cobertas de espinhos."
E finalmente Rosa, uma elegante executiva de sucesso que dedica 100% da sua vida ao trabalho.
"Trinta anos, dez milhões de pesetas por ano. Um BMW. Um apartamento de que sou proprietária. Nenhuma perspectiva de me casar ou ter filhos. Ninguém que goste de mim de uma maneira especial. Isto é assim tão deprimente? Não sei. Será este comprimido branco e verde que tomo todas as manhãs que me ajuda a não chorar? Esse comprimido milagroso que o médico me receitou, esse concentrado milagroso de fluoxicetina que faz que as grandes preocupações resvalem sobre mim como água sobre uma frigideira engordurada?"

Um livro obrigatório para mulheres, duma autora que frisa o papel secundário da mulher na sociedade, as drogas como cortinas de fumo inevitáveis da infelicidade e o sexo como o ópio do povo. Pena a fotografia da capa ser tão horrorosa.

terça-feira, outubro 25, 2005

DIY: The Rise of Lo-Fi Culture - Amy Spencer

DIY significa "do it yourself", expressão que sumariza a ideia de que, se não estamos satisfeitos com os produtos culturais existentes, porque não criar a nossa própria alternativa? Esta ideia aplica-se tanto a revistas ou livros editados pelos próprios autores, como a música gravada pelas próprias bandas, e outras formas de expressão artística e cultural.

Amy Spencer apresenta uma história deste movimento, que se pode considerar como tendo começado com as revistas caseiras ("zines") criadas por fãs de ficção científica (alguns dos quais se tornaram mais tarde escritores conhecidos), e vai até aos actuais blogues e ao problema do download ilegal de música pela internet, passando pelos Beats, dos anos 50, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, que editavam e promoviam os seus próprios livros, ou pela cultura punk dos anos 70.

Somos assim introduzidos a uma enorme variedade de publicações das quais dificilmente teríamos conhecimento de outra forma (em Zinebook encontra-se um bom catálogo de zines, e-zines, e recursos para quem quiser passar à prática...), bem como a bandas pouco conhecidas para o grande público mas de enorme importância no panorama indie, punk, ou no movimento "Riot Grrl".

Resumindo, este é um livro essencial para bloggers, membros de bandas de garagem, ou para todas as pessoas que se sentem desiludidas com o corporativismo dos media e do meio musical e pensam poder contribuir para a criação de alternativas. No mundo globalizado do século XXI, cada um de nós é um potencial produtor de cultura; basta que tenha algo a dizer e a motivação para o fazer.

quarta-feira, outubro 12, 2005


Crónica Feminina - Inês Pedrosa
(D. Quixote)

Quando for grande quero ser como a Inês Pedrosa.

Talvez mais conhecida como romancista, a Inês Pedrosa é uma excelente jornalista, que assina uma crónica semanal na revista do Expresso. Uma selecção destas crónicas foi recentemente editada pela D. Quixote.
Inês Pedrosa tem uma escrita fácil, fluida, luminosa, com um toque de humor, e acima de tudo não tem papas na língua nem medo de chamar as coisas pelos seus nomes, situando-se acima do politicamente correcto.

Os temas explorados nestas crónicas vão desde questões políticas importantes, nomeadamente aquelas que muitas vezes não são consideradas como tal, por serem "assuntos de mulheres", como é o caso dos julgamentos por prática de aborto em Portugal, o flagelo da violência doméstica ou os direitos humanos em países do chamado "Terceiro Mundo"; passam por recomendações de filmes e livros; pelo elogio sincero de pessoas que o merecem (uma prática infelizmente rara no nosso país), e acabam por constituir no seu conjunto uma análise transversal da sociedade contemporânea.

Acima de tudo, estas crónicas são muito viciantes. Uma pessoa começa a ler e depois não consegue parar, lêem-se umas a seguir às outras, e se há uma ou outra cujo ponto de vista difere do nosso, isso não as torna menos estimulantes. Todos os assuntos escolhidos são interessantes e actuais, e tratados com inteligência e humor. Altamente recomendado.

quinta-feira, setembro 29, 2005

quarta-feira, setembro 28, 2005


“O Meu Século” – Günter Grass (Notícias Editorial)

Günter Grass ganhou o Prémio Nobel da Literatura 1999 e é conhecido pela obra "O Tambor".

“O Meu Século” narra um conjunto de eventos históricos contados por diversos protagonistas e em histórias descritas com fantasia e humor, que cronologicamente correspondem à vida de Günter Grass.
O que mais me atraiu nestas histórias foram os pontos de vista pessoais das personagens e a sua comicidade tanto na dor como no fracasso e grandiosidade, mesmo quando se fala em horrores sentidos e vividos de forma cinicamente bondosa.

Os relatos convidam-nos a conhecer a história da Alemanha, a megalomania prussiana, o absolutismo do 2º Reich e a derrocada do último imperador Kaiser Guilherme II. Apontamentos vários da rivalidade naval com o império britânico, a Deutche Gramophon com a primeira fábrica em Hannover (1907) que produz pela primeira vez discos gravados do mesmo lado, os movimentos operários, o fundador do Partido Social Democrata Liebknecht que mais tarde será assassinado, o livro “O Ser e o Tempo” do filósofo existencialista Heidegger que alinhará com as teses nazis. Depois o eclodir da II Guerra Mundial, os pintores expressionistas considerados degenerados Kischner, Techstern e Nold e o impressionista Max Lierbermann obrigado a fugir, a banalização do mal, dos campos de concentração e o ponto de vista dos que lá trabalhavam, a construção das redes de autoestrada do Reich, a juventude hitleriana, a campanha da Polónia, o fim do Carnaval de Colónia, os destroços de Dresden e a teimosia dos que ainda gritavam “Deutchland über alls!!”. Segue-se o pós guerra, a paz, o papel das mulheres dos escombros berlinenses, a Postdammer Platz - terra de ninguém, o regresso do Carnaval e a água de colónia 4711 a borrifar a multidão, o Muro de Berlim e o Checkpoint Charlie, e as histórias de mortos nos jornais, os canais de fuga entre os esgotos, um cidadão da RDA em espera frustrada por um por um Volkswagen para o qual fizera antes o programa de poupança, o regresso do exílio de Willy Brand, o grandioso projecto da Filarmónica de Berlim também chamado "navio encalhado" ou "circo de Karajan", os ódios de estimação contra os polacos pela redivisão das fronteiras, os elementos do grupo extremista Baadeer-Meinhof e o jogo patético de futebol RDA-RFA com a interrogação "qual delas é a minha Alemanha?", a Stasi (o bom marido que vigiava a mulher militante dos direitos humanos), os Trabant, os mísseis da NATO, a nuvem de Chernobyl, as interrogações de um operário de Leipzig sobre “a cidade/comunidade modelo”. E depois da queda do Muro (1989) “a muralha de protecção anti-fascista”, o capitalismo sem contrário, as empresas de armamento alemão, o consumismo, a garotada "em baixo Adidas e em cima Armani", as evocações “Saddam=Hitler”, as simpatias patéticas dos polícias em relação aos grupos de extrema direita, o Ku’damm e o movimento Tecno, a primazia da publicidade e do visual, a alucinação da Love-Parade em Berlim que no impiedoso untz untz-untz os jovens justificavam a sua presença com respostas "Porque é bestial estar aqui","Ora porque aqui posso mostrar finalmente como sou ","Isto aqui é mesmo porreiro", a Dolly, a genética e a renúncia ao sexo masculino.

Günter Grass depois deste estafanço todo, questiona o que ficou, o modelo de sociedade, a unificação, e fá-lo através da última história, contada pela falecida mãe. É a malograda sociedade neo-liberal...
Post redigido por Quibitz

sexta-feira, setembro 23, 2005


"O Vendedor de Passados" - José Eduardo Agualusa (Dom Quixote)

«Desculpe a pergunta, mas posso saber o seu nome?»
«Não tenho nome», respondi, e estava a ser sincero, «sou uma osga.»
«Isso é ridículo. Ninguém é uma osga!»
«Tem razão. Ninguém é uma osga. E você - chama-se de facto Félix Ventura?»

Esta é a história de Félix Ventura, um albino que inventa passados para quem já tem o futuro pensado. O narrador é uma osga voyeur, que noutra vida foi pessoa. O livro joga com a manipulação de memórias e de como elas nos podem perseguir muito depois de já estarem apagadas. O plano onírico é misturado com o plano real, para que as personagens tenham possibilidade de fugir à realidade da sociedade angolana.
"O Vendedor de Passados" lê-se muito rapidamente, sendo escrito com uma linguagem fácil, muito poética e ao mesmo tempo realista. É um bom livro para ler quando não se tem grande paciência para grandes filosofias e para quando se está farto de histórias mirabolantes. É uma leve brisa Outonal.
"A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento. Vemos crescer por sobre as acácias a luz da madrugada, as aves debicando a manhã, como a um fruto. Vemos, além, um rio sereno e o arvoredo que o abraça. Vemos o gado passando lento, um casal que corre de mão dadas, meninos dançando o futebol, a bola brilhando ao sol (um outro sol). Vemos os lagos plácidos onde nadam os patos, os rios de águas pesadas onde os elefantes matam a sede. São coisas que ocorrem diante os nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão demasiado longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já me falha a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu. É isso o que sinto quando penso na minha anterior encarnação. Lembro-me de factos soltos, incoerentes, fragmentos de um vasto sonho."

segunda-feira, setembro 19, 2005

MoMA Highlights - 350 Obras do Museum of Modern Art New York - Público

Ultimamente tenho andado viciada no MoMA Highligts, que vai morar na minha mesinha cabeceira durante uns tempos sem ter de pagar renda. Trata-se duma compilação das principais obras que passaram pelo MoMA (realizadas a partir de 1880) com as respectivas ilustrações e descomplicadas explicações. Ou seja, é uma boa alternativa para quem compra os livros da Tachen e depois apercebe-se que não tem paciência nem memória funcional para os estudar.
Assim pude relembrar a chávena de café peluda de Oppenheim, as verdades evidentes de Jenny Holzer (http://mfx.dasburo.com/art/truisms/), o azul inventado de Klein, os relógios moles de Dali, o gato pensante de Klee, a escultura que aparece nas moedas de 20 cêntimos italianas de Boccioni, as cores de Kandinski, as estrelas de Van Gogh, a angústia de Munch,..., e muitas outras referências da arte moderna (fotografia, filmes, instalações) que aguçam o apetite e relembram a impossibilidade de apreciar algo sem primeiro entender seu significado.
Aconselho vivamente a quem gosta de arte e também a quem não gosta. Este é um daqueles livros que me faz sentir ignorante.
http://www.moma.org/ (site do museu - apesar das imagens em net não terem grande piada, o ideal seria arranjar uma teletransportadora para ver as obras ao vivo - muito caro)
The Sleeping Gypsy - Rosseau - Como um músico, a cigana neste quadro é uma artista; como uma viajante não tem um sítio social definido. Perdida no sonho profundo de quem sonha, está perigosamente vulnerável - no entanto o leão está calmo e fascinado. A "Cigana Adormecida" é formalmente exigente - os seus contornos são precisos, a sua cor cristalina, as linas, superfícies e acentos cuidadosamente rimados. Rosseau joga delicadamente com a luz do corpo do leão. Uma carta sua descreve o tema do quadro: "Uma negra à deriva, uma tocadora de bandolim, está deitada com o seu vaso ao lado (um vaso com água para beber) vencida pela fadiga num sono profundo. Um leão por acaso passa por ali, sente o seu cheiro mas não a devora. Há uma atmosfera de luar, muito poético. A cena é construída num deserto completamente árido. A cigana está vestida com um traje oriental". Como douanier (porteiro) da cidade de Paris, Rosseau foi um pintor autodidacta, cujo trabalho aparentou ser pouco sofisticado para muita da sua assistência. No entanto, muitos aspectos do seu trabalho têm ecos modernistas: as figuras e perspectivas achatadas, a liberdade de cor e estilo, a subordinação da descrição realista à imaginação e invenção. Como consequência, críticos e artistas admiraram Rosseau antes do público em geral.

quarta-feira, agosto 24, 2005

A Linha da Beleza - Alan Hollinghurst - Edições Asa - Man Booker Prize 2004

Não aguento mais.... desisti! Detesto quando isso acontece, mas a cada página que passava, pensava....não aguento mais... E ainda faltam tantas páginas... Que uma perda de tempo... E com tantos livros interessantes que me faltam ler! Definitivamente não é do meu género.

O livro relata a história de Nick Guest, um jovem que aceita passar uma temporada a casa de um amigo rico pertencente a uma familia politicamente poderosa em Kensington Gardens. O livro é escrito em ambiente formal, no tempo de Margaret Tatcher, em que cada personagem constitui um protótipo inglês da época. Há o pai bem humorado e requintado, a mãe das colunas sociais, a filha desiquilibrada cujo principal objectivo na vida é contrariar os pais escandalosamente, o menino rico bem comportado melhor-amigo-mas-quem-dera-que-fosse-mais; o namorado gay preto bem musculado inculto e básico.... Nick tenta adaptar-se a todas estas personagens, experimentado uma vida snob "emprestada" devido ao seu estatuto de amigo da casa pobre mas culto. Assim, como nos livros da Anita, "A Linha da Beleza" é uma série de sucessivas situações em tom de "crónica de costumes da época" ("Nick e o desejo sexual no cinema"; "Nick salva a amiguinha do suicídio"; "Nick e o empregado da festa VIP"; "Nick aprecia arte na mansão"; "Nick vai ao teatro", etc, etc, etc.
Então mas porque é que este livro terá ganho o Man Booker Prize de 2004? Pela sua inteligência, talvez. Cada frase dita pelas personagens nunca tem um significado óbvio, mas remete para a subtileza da época, com as ínumeras referências que lhe são imediatamente atribuídas (e aqui, dou os meus parabéns à excelente tradução portuguesa). Com este livro mergulhamos dentro da mente de cada personagem, não pelos seus pensamentos, uma vez que nos são vedados (só temos acesso a Nick) mas pelos seus gestos, palavras, atitudes.... O ambiente recriado também está tão bem encenado que quase que nos sentimos como intrusos atrás das cortinas daquelas grandes mansões. Outro aspecto interessante consiste na crítica subtil à moralidade de cada personagem, à arrogância e à escala de valores.
Aconselho vivamente este livro a quem não tem mais nada para ler ou a quem tem um fetiche pelos ambientes snobs e VIPs ingleses.

domingo, agosto 21, 2005

Top 5 Ficção

Bem, assim de repente, aqui estão 5 romances que li recentemente e que mudaram a minha maneira de ver o mundo. Todos são contemporâneos, excepto "The Awakening", que é de 1899. Miaxi: como vês partilho um contigo.

Quanto a serem grandes obras literárias ou não, isso é muito subjectivo. "The Awakening" é actualmente estudado em escolas americanas, mas na altura foi muito polémico. O livro "Small Island" ganhou o Orange Prize, e o "Vernon God Little" ganhou o Booker Prize. Mas, prémios literários à parte, são 5 livros de que gostei muito e acho que valem mesmo a pena ler.

"A Menos Que" – Carol Shields
"A Morte de um Apicultor" – Lars Gustafsson
"The Awakening" – Kate Chopin
"Vernon God Little" (O Bode Expiatório) – DBC Pierre
"Small Island" – Andrea Levy
Desafio - Top 5 - livros que tenhas gostado

Ssachy, eu sei que é impossível escolher o livro da vida de uma pessoa (depende da idade, da disposição e da incapacidade de comparar livros completamente diferentes), mas deixo-te aqui um desafio... diz-me de repente 5 livros de ficção/romance mais ou menos recentemente que tenhas lido e gostado bastante. Não estou a falar de grandes obras literárias, apenas de livros que não te tenham deixado indiferente.

Eis os meus!

"Life of Pi" - Yann Martel
"Bonjour Tristesse" - Françoise Sagan
"Uma Casa no Fim do Mundo" - Michael Cunninghan
"A Menos Que" - Carol Shields
"Um Estranho em Goa" - José Eduardo Agualusa

sábado, julho 30, 2005

Harry Potter and the Half-Blood Prince
Para os fãs da saga Harry Potter chega finalmente o penúltimo livro. Um pouco menos interessante do que os 3º, 4º e 5º, uma vez que em dois terços do livro não acontece nada de especial, mas fazendo as delícias dos corações adolescentes. No final, surge um acontecimento inevitável mas que vai abalar o leitor e originar uma reviravolta ao tão bem planeado enredo. E para complicar mais, surge uma nova personagem misteriosa. Não faço ideia como é que se poderá tudo resolver, ou se será possível a autora conseguir com que Harry sobreviva sem utilizar uma solução demasiado rebuscada (tenho a certeza não, uma vez que toda a trama está planeada desde o ínicio). Como é possível alguém criar um mundo tão complexo, tão lógico e um argumento tão bem estruturado...

quarta-feira, julho 13, 2005

sexta-feira, julho 08, 2005


Stella Descending - Linn Ullmann

Stella Descending começa por parecer um policial. Um casal executa uma estranha dança no telhado de um prédio, e a mulher cai. Há várias testemunhas. Uns acham que o marido a atirou; outros, que a tentou agarrar. Há uma detective que vai investigar. Mas o livro não envereda pelo policial. É antes uma sucessão de monólogos intimistas dos vários personagens da vida de Stella, tais como a filha mais velha, Amanda, que passa o tempo a jogar um jogo de computador em que tem de cair de um nível para o outro, ou o velho resmungão Axel, antigo paciente e amigo de Stella (que era enfermeira). Há também as entrevistas da detective a Martin (o marido), e excertos de uma cassete de vídeo que Stella e Martin tinham gravado para a companhia de seguros, e que revelam bastante sobre a sua relação.

O livro é um pouco como um puzzle, e embora não nos seja dada uma resposta definitiva à questão da morte de Stella, é possível chegarmos a uma conclusão, a partir das pistas que nos são dadas. Mas o principal interesse do livro, para mim, é a sua exploração das relações humanas (especialmente interessante é a estranha reacção que Martin tem em relação à filha, Bee, o bebé que nunca chora).

Em conclusão, é um livro muito escandinavo, atmosférico, como um filme de Ingmar Bergman, de quem Linn Ullmann é filha (e da atriz Liv Ullmann). Fiquei ansiosa por ler o outro livro dela (anterior a este), Before You Sleep.

segunda-feira, junho 27, 2005


Elizabet Costello – J.M. Coetzee – Publicações Dom Quixote - Nobel 2003

Ia eu toda lampeira para ler um livro julgava eu sobre os direitos dos animais (somente por obrigação profissional, ah pois), quando me deparo com algo completamente diferente! Nem sei muito bem o que hei-de dizer sobre este romance, se é que possa ser assim classificado.

Temos diversos temas que são dissecados não no sentido de aprendermos mais sobre o assunto, mas no sentido de pensar sobre aquilo em que realmente acreditamos e porquê. Aliás, o livro todo é um debruçar sobre o modo de pensar de alguém que se dedica inteiramente à escrita e ainda da procura desse alguém por todas as justificações possíveis e imaginárias para cada sensação que o mundo real e onírico impõe. Os temas trazidos sob a forma de palestras não são tão interessantes como isso (são apenas perspectivas), mas a forma como são pensados e preparados pela Elizabeth é fascinante. A própria Elizabeth revela-se uma personagem algo antipática, penso que talvez a sua incoerência seja devido a uma fusão Elizabeth-Coetzee.

Para mim o melhor do livro é a capacidade de Coetzee em conseguir descrever determinados raciocínios e sensações que todos já tivemos mas que como não os conseguimos verbalizar e entender racionalmente “esquecemo-nos” facilmente da sua existência. Essa procura da verdade do que sentimos emocionalmente acaba por se traduzir na procura da definição do “Eu”. O último capítulo (que é o meu preferido) descreve todo o suposto processo (kafkiano) da passagem de Elizabeth pelo purgatório e da sua tentativa em descobrir as próprias crenças.

Esta crítica é muito pessoal, uma vez que se calhar nem tenho grandes competências para tratar “Elizabeth Costello” como ele realmente merece. Apesar de reconhecer a presença de um génio da escrita, “Elizabeth Costello” é um livro que vou esquecer facilmente.

terça-feira, junho 21, 2005



Jennifer Government - Max Barry

Este livro é uma divertida sátira à sociedade de consumo e ao poder das grandes corporações, e é simultaneamente um thriller emocionante. Num futuro próximo em que tudo foi privatizado, incluindo o governo e a polícia, Hack Nike (os empregados adoptam o nome da empresa para onde trabalham) vê-se envolvido numa manobra de marketing que inclui o assassínio de vários adolescentes. Jennifer Government é a agente que o vai tentar capturar.
Neste mundo, países como o Reino Unido ou a Austrália são propriedade dos Estados Unidos, que por sua vez é uma grande corporação. A polícia privatizada apenas investiga os crimes se a família da vítima puder pagar; e é mesmo possível contratar a própria polícia para cometer crimes por nós!

Jennifer Government é um livro que se lê muito bem, foi escrito com imenso humor e não podia ser mais actual. É absolutamente imprescindível para quem tenha lido "No Logo", da Naomi Klein (editado em Portugal pela Relógio d´Água) ou esteja interessado no fenómeno da globalização. Embora num estilo leve e politicamente descomprometido, este livro trata questões importantes dos nossos dias, para além de ser muito agradável de ler.

Pode-se ler aqui uma entrevista com o autor:

http://suicidegirls.com/words/Max+Barry+author+of+Jennifer+Government/

visitar o site do livro:

http://www.maxbarry.com/jennifergovernment/

e há mesmo um jogo online baseado no livro:

http://www.nationstates.net/cgi-bin/index.cgi

quarta-feira, junho 15, 2005

Austerlitz - WG Sebald - Teorema

Eis um livro que me custou muito a ler, a digestão foi tão lenta que me deixava muitas vezes mal disposta....A tradução também não ajudou nada!!!! Cheguei a pensar que o tradutor estava mesmo a gozar connosco!!! Estragou completamente o livro... E também não captou muito bem as ideias que Sebald queria transmitir. Nota-se prefeitamente que na parte do Holocausto o tradutor sentia-se muito mais à vontade em escrever... Mas nas outras partes??? Oh my!!! Mas aceito que o livro é absolutamente genial, nas partes em que me consegui manter focada.
A intimidade e a exploração do "eu", a descoberta duma personagem numa sociedade vista como deprimente e isoladora e ainda o nosso entendimento dessa personagem ao longo do livro, que nos vai dando os seus motivos e as suas razões,... são estes os temas que tornam este livro tão interessante....

Também adorei conseguir aperceber-me de alguma da história de alguns lugares que Austerlirz conta e que é tão interessante mas parece tão secreta...Gostei tanto da maneira em que a biblioteca de Paris é descrita, tinha-a visto em fotografia alguns dias antes num livro de arquitectura da Bertrand, mas nunca tinha pensado no edifício como um atentado à ideia do que uma biblioteca deveria ser....
Austerlitz estava dentro do imponente edifício a olhar por uma janela para um jardim interior com árvores aprisionadas e só imaginava pássaros e esquilos a esborracharem-se nos vidros tão transparentes....Austerlitz sentia-se dentro dum edifício austero que representava a liberdade de expressão mas que continha uma prisão artificial sem se saber se a cela era o jardim ou a própria biblioteca.

Concluindo, este livro tem de ser lido com calma, investigando os lugares ao mesmo tempo que Austerlitz viaja, mas não pode ser lido na tradução portuguesa!

Angels and Demons - Dan Brown

Aqui está um livro que toda a gente está a ler, após o sucesso do Código da Vinci. Digamos que não é muito aconselhável àquele tipo de pessoas que visualizam tudo o que lêem ou que tenham uma imaginação muito fértil. Garanto que ficarão bastante agoniadas!! Comparando com o Código da Vinci, Angels and Demons é muito mais visceral, violento, descrevendo uma situação universal de caos e de assassínio do catolicismo em excesso de velocidade. Mas eu dou um exemplo: imaginem um cardeal que foi picoteado no peito de modo a que ficou com os pulmões todos furadinhos e aí aparece a heroína da história tenta fazer respiração boca-a-boca! O que é que aconteceu? Será que fez pneumotórax e entrou em colapso respiratório e morreu logo na altura das picadelas??? Não, isso não tinha piada, o cardeal ainda aguentou 10 minutinhos para poder beneficiar da respiração boca-a-boca. E aí o ar que lhe entrou pela boca saiu pelos furinhos do peito, como sucede quando se tenta encher um pneu furado de uma bicicleta faquir...
Pessoalmente gostei mais do Código da Vinci como livro de aventuras e que dá oportunidade ao leitor para acompanhar a acção e deslindar os puzzles. O Angels and Demons parece-se mais como um episódio do 007, especialmente aquela parte em que Langdon cai dum helicóptero em andamento a uma altura considerável e não morre, não fractura nada e ainda tem cabeça para pensar e corpo para uma noite de amor. Mas enfim, é apenas um livro de aventuras...
Quanto à dualidade ciência/religião, fica-se a saber uns factos muito interessantes mas as discussões também não trazem nada de novo, mas relembram muito do que por vezes nos esquecemos. Outra coisa: é muito irritante os traumas infantis de muitas das personagens como justificação dos seus actos...

Concluindo: livro muito interessante, especialmente para ler na praia! Só comprar se tiver tempo livre, porque obriga o leitor a ler sem parar e a uma velocidade elevadíssima e irritante ("não acredito que estou a ler esta porcaria às 3 da manhã e amanhã tenho de acordar cedo!!!"). É também livro que se esquece passadas 2 semanas. Tenho a certeza que vai dar um óptimo filme de acção (será que Tom Hanks vai dar conta do recado? E quem fará o papel feminino? Halle Berry?).