quinta-feira, maio 08, 2008



A Conspiração Contra a América – Philip Roth

449 páginas lidas numa semana, porque é difícil parar de ler Philip Roth (pela preocupação com as personagens e porque se pararmos é complicado retomar a densidade da história). “A Conspiração Contra A América” relata uma realidade alternativa, sobre como seria a vida dos judeus nos EUA se Charles Lindbergh, um simpatizante do fascismo, vencesse Franklin Roosevelt nas eleições presidenciais de 1940. É caso para dizer que “se não aconteceu podia ter acontecido”, porque a capacidade inventiva de historiador de Roth é extraordinária. Seria fácil resvalar por um caminho mais fácil com uma imitação da situação dos judeus na Europa (não é preciso muita imaginação para voltar a escrever sobre as horríveis cenas a que os judeus se submeteram), mas não foi isso que Roth fez nem nada que se pareça. Roth criou uma situação perfeitamente verosímil em que os políticos agem como políticos, os americanos agem como americanos e as crianças agem como crianças. A história desenrola-se à volta da situação da família Roth, sob a perspectiva do assustadiço filho mais novo, Philip. É muito interessante a forma como lida com o primo Alvin, que entretanto resolve rebelar-se contra o governo de Lindbergh e combater contra Hitler pelo Canadá. Outras personagens muito importantes são o irmão Sandy, que leva uma “lavagem cerebral” pró-Lindbergh, o vizinho alheado Seldom, a traidora tia Evelyn e o jornalista anti-Lindbergh Walter Winchell. Passamos o livro muito preocupados com a família Roth, sempre à espera que o pior aconteça. Tememos que o pai perda as estribeiras e sofra por isso, que a mãe não repare no que está a acontecer aos seus filhos e que Sandy não acorde para a realidade dos factos. Obviamente que a maior preocupação é com a personagem Philip, que vive absolutamente confuso e assustado com tudo o que está a acontecer e sem conseguir encontrar o conforto nos adultos que o rodeiam.
“A Conspiração Contra a América” é assim uma história extraordinária contada por um dos melhores escritores da actualidade (para não dizer o melhor).

sábado, abril 26, 2008

Freakonomics – O Estranho Mundo da Economia -Steven Levitt e Stephen Dubner

Freakonomics trata-se de um livro muitíssimo interessante sobre alguns estudos sobre questões tão diversas como os nomes que estão na moda à batota que os jogadores de Sumo fazem sem ninguém dar por isso. Steven Levitt e Stephen Dubner consideram-se "mega"-alternativos nos estudos que fazem, procurando entender os incentivos e as escolhas que as pessoas fazem e determinar padrões escondidos nos mais variados exemplos. Acaba por ser assim um livro de filosofia, ao reflectir sobre os moldes de organização de determinados microambientes sociais. O livro cativa os leitores através de premissas engraçadas como a razão porque os traficantes de droga ainda não saíram de casa dos pais ou como o Klu Klux Klan perdeu credibilidade quando alguém o colocou no papel do arqui-inimigo do Super-Homem. Os estudos são muito interessantes desmistificando algumas crenças populares de causa-efeito através da estatística e tentando explicar as causas reais escondidas de alguns assuntos tão polémicos como a diminuição da criminalidade a partir da legalização do aborto. Imprescindível.

sábado, março 22, 2008





Harry Potter e os Talismãs da Morte - J. K. Rowling

Este é o sétimo e último livro da série Harry Potter. Não li os sete livros, comecei a ler a partir do 3º, quando as personagens já eram um pouco mais graúdas. E viciei-me como tantas outras pessoas.
A história tem um enredo poderoso e algo complexo. Falando no geral sobre a série, há algo que não entendo. É certo que estes livros estão repletos de fantasia, os heróis são crianças, é a velha história da luta entre o bem e o mal, mas eu considero o universo criado, e muito bem, extremamente complexo para crianças. Falamos de um mundo de bruxos e bruxas totalmente diferente da realidade. E ler que estes livros são indicados para toda a família faz-me confusão. São muitas leis, ministérios, regras, disciplinas, linguagens, desportos, gerações e sei lá que mais, que em nada de assemelham ao mundo real, e por este motivo, não imagino (gastei a minha imaginação) uma criança a absorver e conjugar todas estas informações. Mas nem é so isso. Os primeiros livros que li tinham uma particularidade que me agradou bastante face aos meus normais hábitos de leitura, eram divertidos! Era uma leitura agradável que por vezes nos fazia rir. Com o avançar da série isso mudou radicalmente. Tornaram-se histórias deprimentes e melancólicas de chorar baba e ranho. E não gosto de imaginar crianças a " viajarem" para esse mundo. Desaconselho.
Quanto a este H.P. e os Talimãs da Morte, na minha opinião, não devia ter sido o último. Há demasiada informação despejada pela autora de forma a que o leitor consiga entender o fim. O ritmo, o desenvolvimento da intriga é de extremos. Durante uma parte do livro as personagens não sabem o que andam a fazer e de repente, descobrem as soluções todas! Principalmente Harry Potter, o herói que sempre precisou de ajuda. É das características desta série que achei mais interessante, quem ouve falar de Harry Potter e não conhece a história não imagina que este herói durante toda a série nada fez sem ajuda. Neste livro, segue uma missão numa ignorância completa e do nada passa a saber tudo. Deveria haver um outro livro para a autora nos dar tempo para assimilar as descobertas última hora. No entanto, para adultos, é sem dúvida uma série cativante e este último volume não foge à regra.

quarta-feira, março 12, 2008


“Hunting and Gathering”–Anna Gavalda

Em Português traduzido como “Enfim Juntos” (5 euros mais caro do que a versão inglesa), este livro de Anna Gavalda foi recentemente transformado em filme francês com a Audrey Tautou, filme que pouca relevância teve nas salas de cinema. “Hunting and Gathering” tem quase 500 páginas e pouquíssima história, nunca imaginaria que fizessem um filme a partir daqui. O tema do livro são as personagens e como se entrelaçam uma com as outras. Em primeiro lugar temos Camille Fauque, uma jovem de percurso conturbado que se tenta reconciliar com a sua maior paixão, a pintura. A sua fragilidade física e emocional faz com que viva num mundo à parte, acabando por ser salva pela caricata personagem de Philibert, um aristocrata inadaptado e rejeitado pela família que se refugia na solidão dos livros de história. Philibert partilha a casa de Paris com Franck, um cozinheiro bruto como as portas mas 100% dependente da presença constante de Philibert. Franck foi criado pela avó, Paullete, que não se conforma com o facto de ter de terminar a vida numa horrenda casa de repouso. Pela descrição que acabei de dar acho que não consigo convencer ninguém a ler este livro. A verdade é que se trata de um livro honesto e realista sobre o íntimo do ser humano e sobre o modo como se faz o relacionamento com o próximo e com a sociedade em redor. Acho que não existem muitos escritores que consigam aprofundar tão bem personagens tão diferentes como Camille, Philibert, Frank e Paullete. Interessante e comovente.

terça-feira, fevereiro 05, 2008


Expiação - Ian McEwan

Antes da estreia do filme "Expiação" tinha que me propor à leitura do livro que o inspirou.
É um romance dramático em que a personagem principal narra um acontecimento da sua infância que vem determinar o seu futuro, vivido para expiar um erro cujas consequências não previu. Está dividido em três partes que correspondem a três períodos da vida da narradora, cujo poder imaginativo na infância faz descobrir a escritora futura que vai ser. A terceira parte do romance é passado num hospital londrino que recebe os ingleses feridos dos bombardeiros alemães numa França devastada. Esta parte é magistral pelo rigor, pela cor e pelo movimento incessante e metronómico da personagem principal que se torna enfermeira.
Não conheço nenhum livro anterior de McEwan, mas sugiro que foi neste que explorou o romance psicológico. Apesar da história e dos seus contextos serem apelativos, são as personagens que marcam pelos sentimentos fortes. É um romance muito documentado, inteligente na forma, escrito com muita sensibilidade e além de tudo físico porque as suas personagens nos ficam próximas.

KIVI

quarta-feira, janeiro 23, 2008



A História de um Sonho - Arthur Schnitzler

Arthur Schnitzler é um escritor austríaco frequentemente comparado a Sigmund Freud, devido ao seu interesse pela psicologia/psiquiatria. O livro “História de Um Sonho” foi escrito em 1926 sendo conhecido como o livro que deu origem ao filme “Eyes Wide Shut” de Stanley Kubrick. Schnitzler escreve sobre um casal, Albertine e Fridolin, que numa troca de confidências prometem ser honestos e exporem-se relativamente aos seus desejos mais íntimos e sonhos mais secretos. Fridolin acaba por entender que afinal todos os desejos da mulher dos quais ele não faça parte não contribuem para a segurança do relacionamento, sentindo necessidade de dar azo ao seu direito de desejar outras mulheres. Fridolin acaba por ir parar a uma orgia sem ser convidado, orgia essa pertencente a uma organização secreta que não trata muito bem os intrusos (e quem não se lembra da festa do filme “Eyes Wide Shut” e daquelas notas de piano). A noite de Fridolin confunde-se com o sonho de Albertine pelo seu erotismo e “danos colaterais” na relação. O livro é muito interessante, e um pouco diferente do filme. Enquanto que o filme nos dá aquilo que o livro não nos pode dar de forma muito intensa, como a banda sonora, as cores, as pausas e os silêncios incomodativos, o livro oferece uma maior percepção da influência dos sonhos e desejos no relacionamento do casal.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A Vida e o Tempo de Michael K - J.M. COETZEE

Vencedor Booker Prize e Prix Étranger Femina

Este livro de J. M Coetzee não nos fala sobre uma história ou sobre um enredo, mas sobre a vida de uma personagem e da sua adaptação a um árido cenário. Michael K é um indivíduo que não está interessado nem compreende o que sucede à sua volta (guerra civil na África do Sul), querendo apenas viver a sua vida em paz e em liberdade. Michael K traçou objectivos simples para a sua vida e para as suas capacidades, como levar a mãe à terra natal e viver do que a terra lhe tem para oferecer. Não quer que cuidem dele apesar de ser doente e frágil, não quer trabalhar para um objectivo incompreensível nem interagir com as outras pessoas. Michael K dispensa a caridade e não quer contar a sua história, apenas quer existir à sua maneira. Ao longo do livro observamos Michael K e temos pena dele (exactamente o que a personagem nunca iria querer), pensamos que alguém o deveria ajudar, que alguém deveria reparar na sua incapacidade para estar num campo de trabalho e no facto de nunca vir a constituir uma ameaça numa guerra alheia. Pensamos que poderiam arranjar-lhe uma casa com uma horta e deixá-lo em paz. Continuamos a observar Michael e o definhamento do seu corpo pela fome e pela doença, mantendo-se sempre a obstinação de chegar a um determinado lugar sem se poder defender. Vemos Michael a ser roubado, enganado e acusado de algo que não fez. Vemos Michael a tentar escapar a todos os locais em que não pode exercer o seu direito de escolha. Quando a personagem é internada porque alguém finalmente repara no seu débil corpo e quando o tratamento e alimentação são disponibilizados, vemos Michael a recusar-se a ser ajudado e a fugir (na incredulidade do médico que o tenta compreender). Michael não é nenhuma personagem especial que mereça particular atenção, é apenas alguém que aspira a liberdade.
O livro é interessante pela ideia que deixa ao leitor e pela escrita de Coetzee, com a sua capacidade em descrever o óbvio da maneira mais simples.

“Eu sou mais parecido com uma minhoca, pensou. Que é também uma espécie de jardineiro. Ou uma toupeira, também um jardineiro, que não conta histórias, porque vive no silêncio. Mas quem encontra uma toupeira ou uma minhoca num chão de cimento?”.

quinta-feira, janeiro 03, 2008



A nova Byblos

No fim-de-semana passada tivemos a oportunidade de conhecer a nova Byblos, logo a seguir à visita habitual da FNAC da baixa. A Byblos não fica nas Amoreiras, fica na rua de trás (tem de se atravessar a estrada).
O que tem a Byblos afinal?
Ao entrarmos na Byblos deparamo-nos com uma interessante zona de revistas, um bom começo de 4000 metros quadrados dedicados à literatura. Ao percorrer os dois andares entendi que afinal o espaço não é assim tão grande como eu estava à espera, não sei porquê aconteceu-me idealizar um espaço muito maior. Nas paredes encontramos a frase "O paraíso poderá ser uma espécie de livraria." Ao fim do corredor encontramos uma zona para crianças com um barco. Aliás, toda a livraria é family-friendly. Há espaço suficiente para andar com carrinhos de bebé, há uma pequena sala onde alguém conta a história de "O Pedro e o Lobo" para um conjunto de crianças. Depois comecei a reparar nos aspectos menos agradáveis. Talvez seja por estar ainda no início, mas nota-se uma grande falta de títulos considerados básicos no mundo da literatura. Alguns autores estão muito bem representados, com todos os seus livros , enquanto que outros estão muito esquecidos. Mesmo alguns livros que neste momento são best-sellers estão em falta (o "Expiação" de Ian McEwan estava esgotado). Alguns livros não estão bem arrumados (o "Beatles" de Lars Saabye Christensen está na secção de música, e não é um livro sobre música), enquanto que outros parece que estão arrumados em todo lado (como o livro do Ricardo Araújo Pereira). Também havia qualquer coisa que me surpreendeu com o livro "As Horas" de Michael Cunningham, mas já não me lembro o que era. Gosto de mesas dedicadas a um autor com todos os seus livros, mas irrita-me o desperdício de uma mesa com imensos exemplares do mesmo livro (O Rio das Flores). Também fiquei triste ao verificar que na Byblos também se vendem CD's (em número ridículo, mais valia não terem nada), DVD's, jogos de computador... Se eu fosse um livro sentir-me-ia tremendamente ofendido. Também penso que os peluches são desnecessários, mas se calhar é apenas a minha opinião. Se calhar a maioria das pessoas gosta de ver outras coisas sem ser os livros, para que a saturação pela loja não ocorra tão depressa. Não vi ninguém a utilizar os computadores (sem ser por mera curiosidade), acho que não vão ser muito úteis. Penso que vai ser sempre mais fácil perguntar ao funcionário, que ainda por cima diz logo onde se encontra o livro (nem todas as mesas estão identificadas com códigos de localização e haja paciência para andar à procura). Penso que seria mais útil se nos computadores fosse possível consultar o "universo" à volta do livro (sobre o autor, críticas, etc).
Espero que a Byblos seja um sucesso (como espero para todas as livrarias), mas temo que quem realmente se interesse pelos livros continue pela FNAC (preços mais convidativos, maior diversidade, menos destaque aos best-sellers). Quem se interessa apenas medianamente pelos livros se calhar acabará por optar pelas livrarias dentro dos centros comerciais, pela maior diversidade de lojas.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Viagens no Scriptorium - Paul Auster


É um romance que sai do plano da realidade e dá poderes à imaginação. Passa-se num espaço e tempo não objectivamente identificados, mas que não podemos deixar de associar a acontecimentos político-sociais recentes, a regiões conhecidas e à história da América. Algumas das personagens vieram de outros livros seus, mas na minha opinião, tal não se revela importante para a compreensão do livro. É uma história enigmática de um homem velho, que ficou sem memória devido à medicação a que é forçado, e que foi colocado, por erros cometidos na sua vida, num quarto-prisão e que vai construindo a sua história à medida do que vai conseguindo recordar. Este homem Mr. Blank (vazio) está também prisioneiro de si próprio, porque na sua provação não consegue reagir. Trata-se de uma história intrincada, algo inverosímil, em que se aguarda com entusiasmo o desfecho e a clarificação do enigma, mas no final (última página) o autor descarta-se e entra no território da metafísica. Não me soube bem esta solução, não estava preparada para isto.

Kivi

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Os Melhores de 2007 - Segundo o Público
(Ípsilon - Sexta-feira 21 de Dezembro 2007)

1 - Uma Grande Razão: os Poemas Maiores - Mário Cesariny (Assírio & Alvim)

Vários livros desta lista, incluindo o primeiro lugar, são poesia. Nada contra, mas a poesia é sempre uma escolha muito pessoal. Eu por exemplo escolheria a recente edição dos Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke, traduzidos por Vasco Graça Moura (Bertrand), mas é uma escolha igualmente pessoal.

2 - Pais e Filhos - Ivan Turgeniev (Relógio d'Água)

Nunca ouvi falar, mas pareceu-me interessante, talvez vá investigar mais.

3 - A Modernidade - Walter Benjamin (Assírio & Alvim)

Também não li, mas parece-me uma boa escolha. Um livro que também me parece interessante sobre o tema do modernismo é The Lure of Heresy, de Peter Gay (crítica do Los Angeles Times)

4 - Memórias - Raymond Aron (Guerra & Paz)

Não me interessa particularmente.

5 - A Morte de Theo Van Gogh - Ian Buruma
(Presença)

Este recomendo o mais possível. É um livro que consegue abordar as questões do terrorismo, dos imigrantes muçulmanos não integrados nas sociedades europeias, do fanatismo religioso, tudo isto sem ser panfletário, sem falsos moralismos, e sem demasiadas vénias ao "relativismo cultural". É uma espécie de grande reportagem sobre o assassinato de um polémico realizador de cinema holandês, por um fanático islâmico. Ao longo do livro vamos conhecendo várias personagens, desde o próprio Theo Van Gogh (nada simpático), até Ayaan Hirsi Ali (cuja biografia Uma Mulher Rebelde se encontra igualmente editada pela Presença), passando por muitos outros. Um livro importante e que se lê rapidamente.

6 - Na Praia de Chesil - Ian McEwan (Gradiva)

Parece-me ser um livro bom, mas ainda não o li porque acho que deve ser muito deprimente. É sobre um casal que se separa logo na noite de núpcias, por uma série de mal-entendidos.

7 - A Estrada - Cormac McCarthy (Relógio d'Agua)

Segundo o público, dava um bom filme. Vou esperar pelo filme.

8 - Metamorfoses - Ovídio (Cotovia)

Desta lista, este era o que eu mais gostava de encontrar no sapatinho. Quase todas as histórias da mitologia grega e romana chegaram até nós através desta obra de Ovídio. Se o Pai Natal não mo trouxer, lá vou ter eu que o comprar...

9 - Tudo o Que Sobe Deve Convergir - Flannery O'Connor (Cavalo de Ferro)

A primeira mulher da lista! (Aparecem apenas 3, numa lista que me parece ser demasiado masculina. Então e a Doris Lessing, que acabou de ganhar o Nobel? E a Zadie Smith, de quem acabou de sair em Portugal Uma Questão de Beleza?) Mas não é por isso que me dá grande vontade de o ler. Neste momento não me apetece nada ler sobre o racismo no Sul dos Estados Unidos. Talvez noutra altura.

10 ex-aequo As Benevolentes - Jonathan Littell (Dom Quixote)

Este saiu há pouco, por isso suspeito que ainda vai ser muito falado. Não me apetece lê-lo não só por ser muito grande (para grandes épicos, prefiro os antigos), mas também porque não estou com vontade de ler um livro enorme sobre o Holocausto (por muito relevante que seja).

10 ex-aequo Século Passado - Jorge Silva Melo (Cotovia)

Isto não me interessa mesmo nada.

12 - O Que Foi Passado a Limpo. Obra Poética (1965 - 2005) - Armando Silva Carvalho (Assírio & Alvim)

Mais poesia. Só experimentando.

13 - Colecção da Obra Essencial de Pessoa - edição de Richard Zenith (Assírio & Alvim)

Seria impossível não considerar esta uma edição essencial de 2007.

14 - Todo-o-Mundo - Philip Roth (Dom Quixote)

É um óptimo livro, já recomendado neste blog. Só tenho uma coisa a apontar: era desnecessário dar-lhe um título em português do Brasil. Quanto ao resto da tradução não sei, porque li apenas o original, mas acho péssima a escolha do título. Não será fácil arranjar uma tradução para Everyman, e compreendo que hipóteses como "Todos os homens" ou "Qualquer homem" pudessem ser descartadas por questões de inclusão de ambos os sexos, mas de certeza que havia outras opções. "O Homem", por exemplo. Sei lá. Mas enfim, deve ser para nos começarem a habituar ao ridículo acordo ortográfico que aí vem.

15 - Poesia 1963/1995 - Vasco Graça Moura (Quetzal)

Mais poesia. Nada a dizer.

16 - Aprender a Rezar na Era da Técnica - Gonçalo M. Tavares (Caminho)

Fiquei com curiosidade de ler alguma coisa deste autor.

17 - Shakespeare, Uma Biografia - Peter Acroyd (Teorema)

De uma maneira geral, as biografias não me despertam qualquer interesse. Esta não é excepção.

18 - Orlando Furioso - Ludovico Ariosto (Cavalo de Ferro)

Deve ter o seu interesse, mas dentro dos épicos medievais acho que prefiro o Beowulf (vou a meio). Tem muito mais piada e envolve um dragão. Recomendo a versão em inglês moderno, que mantém uma agradável musicalidade baseada na aliteração de duas a três consoantes em locais específicos de cada verso.
Ah, e não recomendo mesmo nada o filme, apesar das 3 dimensões continua a ser uma porcaria. O monstro é nojento, as personagens são previsíveis até à exaustão, a mãe de Grendel é uma fantasia hollywoodesca com pés em forma de sapatos de salto, e a única coisa vagamente interessante é o dragão.

19 - A Rússia de Putin - Anna Politkovskaia (Pedra da Lua)

Deve ser importante, ou ela não teria sido assassinada. Dito isto, não me apetece ler o livro.

20 ex-aequo Personas Sexuais - Camille Paglia (Relógio d'Água)

"uma obra provocadora e perturbadora sobre arte e decadência na cultura ocidental, da pré-história à pop". Hmm... nesse tempo todo não deve ter sido só decadência. Digo eu.

20 ex-aequo Gente Independente - Halldór Laxness (Cavalo de Ferro)

É capaz de ser bom. Passa-se na Islândia e pela descrição parece-me muito interessante.
Não é que tenha nada a ver, mas acabei de ler um livro de um escritor nórdico, Lars Saabye Christensen - Beatles - também editado pela Cavalo de Ferro, e adorei. É um livro sobre o crescimento, a adolescência, as primeiras desilusões, o sentimento de nos encontrarmos perdidos no mundo; mas também, os amigos, as primeiras namoradas, o amor, o futuro ainda por abrir.

20 ex-aequo Balada para Sérgio Varela Cid - Joel Costa (Casa das Letras)

Tem a ver com o "mundo português da música erudita". Whatever.

20 ex-aequo Como Falar dos Livros que Não Lemos? - Pierre Bayard (Verso da Kapa)

Para finalizar, um livro que pode ser considerado hipócrita, ou irónico, dependendo do ponto de vista. A mim parece-me um bocadinho parvo. Qual é o interesse de fingir ter lido livros que na realidade não se leu? Deve ter interesse, sem dúvida, para quem se move em círculos pseudo-intelectuais para os quais é requisito essencial ter lido uma série de obras consideradas essenciais mas que na realidade não houve tempo, nem pachorra, para ler. Ora talvez nesses casos seja mais eficaz: a) mudar de círculo de amigos, ou b) mudar de assunto e começar a falar de música, política ou qualquer outro assunto. Ou ainda melhor, falar sobre livros possivelmente menos elitistas mas que lemos realmente, e que podem ter enorme relevância para determinado assunto.
Porque a piada dos livros não é falar sobre eles (OK, também tem alguma piada), é principalmente lê-los. Imergir totalmente em mundos, personagens, situações e ideias diferentes. Acabar um livro e sentirmo-nos uma pessoa diferente. Isso é uma experiência profundamente pessoal. Para Proust, ler era melhor que uma conversa com o autor, era "receber uma comunicação com uma outra forma de pensar, mas permanecendo sozinho, ou seja, continuando a usufruir da capacidade intelectual que temos quando sozinhos e que a conversa dissipa imediatamente" (citação retirada do artigo "Twilight of the Books", do New York Times).

Feliz Natal e Boas Leituras!

domingo, novembro 04, 2007



















Ainda Josie Dew

Q. How much weight are you carrying?
A. 65 kilos including bike but it varies depending on how wet my tent is (usually very) and how much food and water I've got on board (usually lots).
Q. Don't you need an engine to move that lot?
A. No, I like travelling slowly - apart from those times that I wish I was travelling a bit faster.
Q. Isn't it dangerous going downhill with such a load?
A. Not really, it's more a fun feeling akin to freefalling off the edge of a cliff.
Q. That sounds dangerous.
A. Well, maybe a bit, in a dangerously safe sort of way. But I like to think I can stop if I have to.
Q. Have you got the kitchen sink in there as well?
A. Yes, I've got to do the washing up somehow.
Q. (Asked by normal looking person): You're not alone are you?
A. Yes
Q. (Asked by psychopathic serial-killer sort of person): You're not alone are you?
A. No, I have several armed bodyguards up my sleeve.
Q. Don't you find it scary travelling alone?
A. Sometimes. But after 20-odd years of cycling in fits and starts around the world, I've found that most people don't want to kill you, they want to help you.
Q. You must be very brave
A. No, I just like cycling.
Q. Don't you get lonely?
A. No, there's no time to get lonely as there's always a hill to be climbing, or a wind to be fighting, or a map to be reading, or a bike to be oiling, or a banana to be eating, or a sock to be washing, or a letter to be writing, or a stranger with which to be chatting, or a tent to be pitching, or a night to be sleeping, or dreams to be dreaming.
Q. So where do you sleep?
A. Mostly in my tent on beaches, behind hedges, up mountains, in temples, in campsites, in forests, in floods. Sometimes I stay with friends or people I meet or treat myself to a hostel or B&B.
Q. How far do you cycle a day?
A. Anything from 10 miles to 100 miles.
Q. Do you get a lot of problems with your bike?
A. So far, no.
Q. What do you do when you get a puncture?
A. Mend it.
Q. What do you do when it rains?
A. Get wet.

sábado, novembro 03, 2007


Josie Dew – Pelo Mundo em Bicicleta

Se existe outra maneira de ver menos de um país do que a partir de um carro, ainda não a experimentei.” – Eric Newby – A Short Walk in the Hindu Kush

Como o próprio título indica, trata-se de um travel book (ou bike-travel book) que me veio parar às mãos e que sem me aperceber, acabei por devorá-lo em muito pouco tempo. Josie é bastante aventureira e “quase masoquista”, ao andar quilómetros e quilómetros, sozinha ou acompanhada, por locais como a Índia, Islândia (brrr), Roménia, Marrocos, Portugal (lol), etc. Quando vai sozinha e pelo facto de ser mulher e britânica, causa bastante curiosidade e acaba por interagir muito com as populações locais, dando-nos o ponto de vista não do turista mas do viajante observador. Claro que surgem dificuldades, quer acidentes viários, pessoas perigosas/exibicionistas, problemas de saúde quando não existem hospitais de confiança por perto, falta de comida, mas tudo isto faz parte da aventura não servindo para que Josie desista do vício de bicicletar. Fui à página de Josie para saber se passado todo este tempo ela ainda tinha pernas para continuar, e para meu espanto descobri que teve uma filha e que agora bicicla acompanhada pela mesma. Valente!

http://www.josiedew.co.uk/

quinta-feira, outubro 11, 2007


Doris Lessing
(by Mark Gerson, 1956)
Vencedora do Nobel da Literatura 2007
"Think wrongly, if you please, but in all cases think for yourself."

segunda-feira, outubro 08, 2007



Quem Nos Faz Como Somos - J. L. Pio Abreu
É de novo a satisfação de ler um livro designadamente científico – é assim que Pio de Abreu entende e muito bem a ciência, e em que facilmente nos sentimos envolvidos. O livro é agora repartido em capítulos relativamente independentes. Não esquecer todavia de estar atento ao último capítulo. É assim que nos vai sendo descrito como somos determinados pelos nossos genes e pela cultura com um sistema alargado de representações sociais, de crenças, de signos, isto é de uma organização social essencial à nossa sobrevivência. O relato que faz das histórias de vida, naturalmente retiradas da prática clínica ilustram como as experiências vividas e sentidas passaram a condicionar o rumo tomado.
Escreve com graça e ironia, com pontos de atracção ao leitor. É uma reflexão ao nosso quotidiano, à invasão selvagem dos media, ao insólito das imagens da televisão que torna as pessoas dependentes de quem lhas fornece, enfim da irremediável cedência do espaço público ao espaço privado. As ofertas das identidades surgem como um perigo da nossa sociedade, por fanatismos míticos e tiranos, por mesmo identidades virtuais que os media transmitem aos consumidores isolados. Por tudo isso “ a labuta humana começa a ser uma luta pela identidade” (sic). Por isso a importância da aquisição de uma entidade ampla, que não abdica da informação e da crítica, nem da gestão equilibrada das diversas identidades e interesses. O homem é assim fruto de uma história civilizacional e biológica, que existe enquanto o outro existe e daí o grande espaço para a comunicação e a interação com os outros, da importância da relação presencial, do olhar nos olhos, do não deslumbramento com aquilo que os media produzem e da valorização da ligação à natureza.

E foi ontem que assisti à apresentação do livro pelo autor no fórum FNAC em Coimbra. Pio de Abreu esteve como eu esperava, pena foi que o público tenha sido pouco interventivo.

Kivi

domingo, outubro 07, 2007

Miguel Torga

Os Contos da Montanha
A Vindima

E é assim que tardiamente entro no universo de Miguel Torga e prometo que vou continuar.
Ambos os livros nos remetem para o reino maravilhoso de Trás-os-Montes, terra de Deus e dos Deuses. A vindima coloca-nos no país rural, atrasado e classista. É bom conhecer os meandros do Doiro (o Doiro de Miguel Torga) e do vinho do Porto, das jornas intensivas, da organização do trabalho, das quintas que conhecemos só em postal (a Cavadinha que reconheci em passeio no mês de Setembro), da competição e jogos sujos entre os diversos interesses económicos, dos proprietários das cidades, do povo que só lá ia buscar uns tostões, da alegria desse povo, das aldeias hoje conhecidas turisticamente como vinhateiras –Galafura, Proverende, Celeirós, S. Martinho de Anta, etc. Conhecer esta geografia hoje remete-nos à história, a uma época em que tantos portugueses emigraram por fome de pão, num duro suborreco lá se foram em demanda do Brasil (sic). Algumas contruções apalaçadas, igrejas e capelas ao estilo barroco poderão ser encontradas nestas aldeias tão arrumadas do Doiro e que são obra de emigrantes da primeira levada para o Brasil. Apesar da nossa miséria, a Miguel Torga sente a pátria como uma iman, onde dificilmente se consegue viver longe. É este mundo rural que Torga escreve exemplarmente nos Contos da Montanha, um mundo telúrico onde o homem se funde com a natureza, da solidão da natureza, são os dramas vividos com uma graça que nos espanta e que nos faz venerar este povo. Percebo agora porque Torga não tenha qualquer paciência para aturar o homem pseudo-culto e que se tenha colocado à margem das homenagens e cerimónias do homem urbano.

KIVI
John Darnton – O Pecado de Darwin

John Darnton, um jornalista vencedor de um Pulitzer que escreveu durante 39 anos para o The New York Times, aventura-se num romance que explora as diferentes facetas de Darwin, sem que entre pela vertente educativa da teoria da evolução e ficcionando a personalidade/dilemas da personagem. A história divide-se em três partes que se interligam. A primeira história consiste no diário de Darwin durante a viagem no Beagle, onde será desvendado o pecado. Ao mesmo tempo podemos acompanhar o diário da filha de Darwin (Lizzie), onde nos apercebemos da mentalidade da época, as inquietações do pai e das pistas que fazem chegar Lizzie ao pecado. Por fim, surge a narrativa principal, a história de Hugh, sendo este um investigador de Darwin que através da análise dos diários chegará também à mesma conclusão relativamente ao pecado. Para além dessa parte da investigação (a mais interessante, por sinal), surgem ainda os conflitos familiares de Hugh que pouco adensam o romance, e ainda a sua relação (não muito relevante) com outra personagem.
Trata-se de uma leitura medianamente interessante para um período de férias, sendo bastante fluida e rápida mas por vezes entediante especialmente quando surge a temática da família de Hugh. Para quem quer saber mais sobre a teoria da evolução e sobre Darwin, não será este livro que irá ajudar, uma vez que tudo gira à volta do “pecado” e o mesmo é ficcionado. Dispensava-se a parte forçada das vacas loucas e de tudo o que anda à volta do irmão do Hugh. Foi interessante rever o “Goblin Market” de Christina Rosseti (pré-rafaelistas), poema de significado para a filha de Darwin, cujo nome e dúvidas coincidem com a heroína do poema.
http://www.theotherpages.org/poems/roset01.html

terça-feira, setembro 18, 2007



Contra o Fanatismo – Amos Oz

O que é o fanatismo? Não se resume apenas aos bombistas suicidas fiados na recompensa celestial. Fanáticos são todos aqueles para quem o fim, seja ele qual for, justifica os meios. Ao contrário dos restantes de nós, para quem a vida é um fim em si própria, e não um meio. Fanáticas são as pessoas que não suportam que os outros tenham ideias e modos de vida diferentes dos seus e que querem à força convertê-los às suas ideias, sejam elas de ordem religiosa, política, social...
O fanatismo é insidioso e difícil de combater. Algumas das armas mais eficazes contra ele são a literatura, o sentido de humor, e aquilo a que se designa por empatia: o exercício de nos tentarmos imaginar na pele do outro.
Este pequeno livrinho, baseado em conferências dadas pelo romancista judaico Amos Oz, que se define a si próprio como um ex-fanático recuperado, é simultaneamente um ensaio sobre a natureza do fanatismo e uma análise sucinta do conflito entre Israel e a Palestina, que atribui culpas e razão a ambas as partes, sugerindo aquela que acabará por ser a única solução, embora desagrade a todos os envolvidos: um compromisso.

terça-feira, agosto 14, 2007



Eu Amava-a - Anna Gavalda

Anna Gavalda é uma jornalista francesa com vários livros publicados. Apesar da capa causar alguma repulsa, posso dizer que gostei. Porém, não é nenhuma obra-prima, nem um livro a recordar. É um livro honesto, simples, sobre a natureza humana, em que uma esposa traída conversa com um sogro compreensivo e casmurro. Lê-se num ápice, e num ápice nos solidarizamos com as duas personagens, apenas porque são humanas e o aceitam, entendendo os erros do passado no respectivo contexto. Um livro de confissões e emoções, um pouco de ar fresco sentimental num mundo de tabus quanto a evidências demasiado simples - as características emocionais do ser humano.

domingo, agosto 12, 2007



Naomi - Junichiró Tanizaki

Um romance com uma escrita muito elegante e graciosa, mas cuja leitura não me interessou. É um romance de 1920 de um dos principais escritores japoneses e em que se observa a pressão da influência europeia no Japão. Esta obsessão pela sociedade europeia poderá compreender a decadência do comportamento de Naomi, mulher possessiva, lasciva e promíscua que subjuga o seu amante até à servidão. Elegantemente erótico Jõji não deixa de ser um masoquista, incapaz de reagir à perversidade da bela jovem Naomi. É também um fetichista pelos pés, tendo sido este autor já caracterizado como um podólatra. Será uma obra-prima de um romancista japonês, mas este romance não me comoveu em especial já que não o senti como parte da tradição japonesa.


KIVI

terça-feira, julho 31, 2007


O Animal Moribundo - Philip Roth


É um romance que nos agarra até ao fim. Escrita rigorosa, detalhada e seca como se conhece deste autor puramente americano. Individualista exacerbado, por vezes cruel mas também sincero, dá-nos neste romance um olhar sobre a decadência física, quer pela idade quer pela doença. O personagem é um professor universitário que está a envelhecer, mas que não desiste de um comportamento lúbrico e licencioso. Escrita sem preconceitos, o professor vem a viver o que chamou por uma “virilidade emancipada”, fora de amarras familiares ou sociais. Mas a coisa não será assim tanto, pois uma nova aventura com uma jovem esteticamente perfeita, fá-lo perder o controle. Muito bom.

Kivi