terça-feira, janeiro 11, 2011






O RETRATO DE DORIAN GRAY
Oscar Wilde


Esta obra de forte cariz estético desafia a moral da época – uma Inglaterra Vitoriana, tendo Óscar Wilde explorado teatralmente os limites e se colocado como o criador do movimento - esteticismo ou dandaísmo. Mas o mais sublime no romance é o debate de ideias e de atitudes, através da experimentação do diálogo dialéctico entre as personagens num cenário condimentado pela intriga e pelo crime. É ainda um constante elogio à arte, á pintura, ao teatro e à música.
Conta a história de Dorian Gray, um jovem Adónis que serve de modelo ao pintor Basil Hallward e por quem este se apaixona e da sua relação com Lord Henry, um aristocrata cínico e hedonista que seduz Dorian para a sua visão do mundo. Priorizando a arte e a juventude como valores essenciais, tudo é permitido em nome da beleza e do hedonismo dos sentidos, não havendo lugar para doutrinas úteis, morais e realistas. Mas como beleza, que é uma forma de génio é efémera, Dorian vai dar a sua alma ao diabo. Sendo um romance de época, deliciei-me em especial com a forma adorável como as três personagens masculinas se tratam, só mesmo sendo britânicos!

Kivi

segunda-feira, setembro 20, 2010


A Viagem do Elefante
José Saramago


Baseada num facto histórico, cujos pormenores estavam pouco documentados, Saramago criou a história da viagem do elefante, oferecido pelo rei D. João III em casamento ao seu primo arquiduque da Áustria Maximiliano II. O elefante, a que chamou Salomão, viajou de Lisboa a Valladolid e já acompanhado pelo séquito real seguiu para a Áustria. Escrito em condições muito difíceis, este romance representou para Saramago a metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas" “E o que é que nos espera? A morte, simplesmente. Poderia parecer gratuita, sem sentido, a descrição, que não é exactamente uma descrição, porque é a invenção de uma viagem, mas se a olharmos deste ponto de vista, como uma metáfora, da vida em geral mas em particular da vida humana, creio que o livro funciona", referiu. Por isso a sua epígrafe é “sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”. È um romance que mistura realidade com ficção e em que o Nobel no apogeu da sua grandeza literária traz com ele a graça, a inteligência e a ironia da escrita. Achei esta obra primorosa.
Kivi

terça-feira, agosto 03, 2010


VIRGÍLIO FERREIRA

Aparição

O romance é narrado pela personagem principal, Alberto Soares, que numa primeira linha narrativo temporal, encontra-se velho em um antigo casarão e revive suas memórias. Nessas lembranças, acompanhamos uma outra linha temporal em que a personagem, agora mais jovem, recém-chegado a cidade de Évora, na qualidade de professor, para dar aulas no Liceu da cidade vem a conviver com uma família burguesa.
“Aparição” é um romance autobiográfico, de inspiração existencialista, em que o homem busca a identidade de si próprio. É pois um romance reflexivo, sobre as contradições da vida humana, sobre a individualidade e a responsabilidade da existência e a busca da razão da vida na sua ligação com a morte. Alberto Soares apresenta-se como um ser em conflito, fragmentado, alguém que procura encontrar um percurso de vida face a uma determinada problemática. Alberto confere a si próprio uma faceta messiânica, detentora de uma Verdade que tentará levar aos outros, e que, por incompreensão e deturpação, vai originar o seu isolamento e a sua rejeição. ““Não procures a noite por não suportares o dia; leva para o sol a tua aparição e serás um homem” O seu percurso é marcado por uma série de encontros e desencontros consigo próprio e com os outros e também pela tragédia da morte. O termo "aparição" significa exactamente a revelação instantânea de si a si próprio. Évora representa para ele a materialização do seu conflito interior e o drama de existir. Inicia as interrogações existenciais e sem razões válidas para justificar o seu afastamento de Deus, começa a construir a sua existência a partir de si próprio - ele será o seu deus;
E da parte final destaco: “ O campo arde vastamente, como uma destruição universal…A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que devia arder? Aacso será possível construir uma cidade como a imagino, a Cidade do Homem? …Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche – o ciclo, a viagem, mais perfeita.”

sábado, junho 05, 2010


a máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe

Foram duas entrevistas ouvidas na rádio em momentos diferentes, que me levaram a ler este livro, já que alguma curiosidade mantinha pelo autor que José Saramago tanto tem elogiado. É um jovem autor que com certeza tem marcado a diferença pela criatividade e pela linguagem que tão bem aproxima o leitor. O livro é uma homenagem ao pai que morreu antes de ter chegado à terceira idade e aspira a dar conhecimento de um passado político e social vivenciado por aquele, mas em parte por si desconhecido. A personagem principal é o Sr. Silva, apelido tão portuguesmente repetido, um octogenário que vê a sua vida mudar repentinamente quando colocado no lar “A Feliz Idade”. É a luta de um homem que quer manter a sua identidade num local onde lhe é roubada a alma, apesar desse local surgir como confortavelmente paternalista. Ele perde a mulher, a sua Laura constantemente evocada com amor, como um quotidiano de rotinas e de conformidades de um barbeiro, que mais não deseja que ser um homem de família. É uma evocação de passados num país vivido na ditadura, de mesquinhez e inveja. É um homem que no seu final faz contas à vida, e que apesar da revolta sentida com a nova realidade vem a encontrar naquele resto de solidão a amizade junto de iguais. O romance é atravessado pela ironia dos diálogos com os outros idosos, mas apesar de alguns elementos de alegria, a situação do Sr. Silva é mesmo trágica, como a de todos aqueles que chegam a este ponto sem retorno. O romance está muito bem estruturado, mas gostaria que o autor recomeçasse a escrever com maiúsculas. Afinal porque as aboliu? Não vale a pena começar uma frase com minúsculas.

Kivi

domingo, fevereiro 28, 2010

BRIAN WARD -PERKINS

A QUEDA DE
ROMA E O FIM DA CIVILIZAÇÃO

Trata-se de um livro que responde à pergunta clássica: Porque caiu o Império Romano? O autor é um arqueólogo inglês que através de testemunhos, em especial arqueológicos, vem comprovar-nos o retrocesso civilizacional do mundo ocidental ocorrido no século V com os invasores vindo do norte, da Alemanha e das estepes, que os romanos chamavam simplesmente de «bárbaros». Coloca-se numa atitude crítica relativamente à comunidade de historiadores, pela forma confortável como consideram o fim do mundo antigo. Assim a leitura dominante defendida é de que as invasões bárbaras são amortecidas e suavizadas, numa transformação da sociedade contínua e positiva e em que os invasores germânicos são pacificamente acomodados nas províncias romanas. Contrariamente, na sua opinião, o século V assistiu a uma profunda crise militar e politica, causada pela violenta e dolorosa tomada do poder pelos invasores bárbaros. Nove décimos da Europa regrediram para mil anos para o princípio da Idade do Ferro e levaram mil anos a recuperar, recompondo-se só Renascimento. Delonga-se na sofisticação do mundo romano, dos níveis de conforto atingidos, de uma elite de sabedoria, dos monumentos sofisticados, da riqueza criada e do acesso de muita gente aos bens e à cultura, aquisições que deixaram de ser vistos posteriormente durante muitos séculos. Considerando que os testemunhos escritos disponíveis são insignificantes, o autor serve-se dos objectos escavados para reconstituir a produção e a distribuição, a complexidade económico que distingue uma civilização de uma não civilização. Critica o movimento actual da comunidade de historiadores que se afastam da história económica por ter deixado de estar na moda, substituindo-a pela história da religião. Referindo-se à universidade de Oxford, pontua que os estudos clássicos da cultura greco-romana perderam o seu estatuto privilegiado e que os séculos pós romanos deixaram de ser a «idade das trevas», que se seguiu à extinção de uma grande civilização.” Na verdade, no mundo moderno pós-colonial moderno, o próprio conceito de «civilização» seja ela antiga ou moderna, é agora pouco confortável, porque é visto como aviltante para as sociedade que são excluídas do rótulo. Hoje em dia, em vez de «civilizações», aplicamos universalmente a palavra neutra «culturas»; todas as culturas são iguais e não há culturas mais iguais que outras.”

Kivi

segunda-feira, outubro 05, 2009

Orhan Pamuk

Istambul - Memórias de uma cidade

Foi o interesse de conhecer esta cidade e o imaginário do seu exotismo que me levou à leitura do livro. Mas não é de verdade um livro de viagens , antes de memórias de uma cidade e das percepções que dela ficaram ao longo do crescimento do seu autor. Pamuk remete-nos à nostalgia de uma cidade que foi cruzamento de civilizações e do império otomano perdido com a fundação da república turca em 1919. Vai-nos dando conta da decadência, da descaracterização e do empobrecimento cultural de Istambul, através do olhar sobre a sua infância solitária, sobre o passado familiar, revisitando as imagens e gravuras que ficaram do passado e nos relatos de poetas e escritores solitários istambulenses e europeus (ex.Flaubert). Não são só as marcas do exotismo das casas dos paxás, dos haréns e a transformação da paisagem da cidade e do movimento e vida do Bósforo, mas em especial a reversão da paisagem interior, como o emergente sentimento de tristeza e melancolia entranhado nos seus cidadãos, o designado húzún. O húzúnpassou a ser na literatura a causa escolhida consciente e orgulhosa do insucesso, do fracasso, da indecisão e da pobreza dos seus citadinos, apesar de proporcionar a união e o sentido de comunidade. A transformação de uma cidade que representava outrora a riqueza do Médio Oriente num lugar empobrecido e esgotado na sequência as guerras entre o Ocidente e com a Rússia, fez dos istambulenses uma multidão introvertida e nacionalista e suspeita em relação ao exterior. Esta transformação marca inevitavelmente o autor, cuja introversão o remetem inicialmente para o gosto da pintura -sempre paisagens do Bósforo e só mais tarde para a escrita. A título de curiosidade, Istambul da sua infância tinha um milhão de muçulmanos e não os dez milhões de hoje.

Sem estar em causa a escrita e o interesse pela forma singular como fala da cidade e como ela determinou o seu destino inevitável, achei o livro maçudo.

Kivi

sábado, agosto 22, 2009


José Eduardo
Agua Lusa
BARROCO TROPICAL



Agua Lusa entusiasma-nos com as suas histórias de personagens poéticas e absurdas, numa escrita de realismo fantástico. Projectando o romance em 2020 na cidade de Luanda, faz uma viagem pelos infernos numa cidade super populosa e num país em que o petróleo já se esgotou. É o caos e o absurdo qualificado na Termiteira - o prédio em que os elevadores já não funcionam e em que habitam ricos e pobres, com a diferença de que os mais pobres, os miseráveis e os estropiados vão descendo nos andares até chegarem à cave, onde vivem como ratos, meninas - cão, feiticeiras, mendigos, catorzinhas, etc. Angola é governada por uma Presidente e um sistema corrupto impõe-se uma teia de servidores e de informadores na busca de favores e de poder.
A principal personagem, Bartolomeu Falcato é escritor e vive no 47º andar da Termiteira a sua amante- Kianda é uma cantora com carreira internacional. São ambos os narradores do romance. Bartolomeu quer desvendar um mistério –uma mulher que caiu do céu, mas esta intenção ocasiona-lhe sérios riscos erevelando-nos o abismo e o absurdo. É uma história sobre o medo e o poder, que não pode deixar de estar associada ao mau sentido de crescimento de Angola. Esse medo de falar e de ter outra opinião, está bem patenteada no Centro de Saúde Mental Tata Ambroise, em que os politicamente alegados doentes psiquiátricos estão em corredores labirínticos amarrados a motores e outras peças enferrujadas de carros desmantelados e obrigados a “tratarem-se” com chá com penas enfeitiçadas, que conduzem à hipnose e a debitar a informação pretendida. Ele como a sua avó, também acredita em anjos e tem um talento especial para a felicidade. Agua Lusa terá revelado “ Sou uma das pessoas mais felizes que já tive oportunidade de conhecer”. É bom sentir este optimismo e confiança, mas parece-me difícil compatibilizá-la com a realidade que faz sentir da cidade de Angola.
Agua Lusa, tanto no livro como na apresentação do mesmo que fez no mês de Junho no Casino da Figueira, diz, que como escritor ter sido colocado entre Coetzee e Garcia Márquez,, mas o barroco vai buscá-lo seguramente ao segundo.
O que ficou do livro foi o retrato de Luanda, o absurdo da descida aos infernos da Termiteira e do Centro Tata Ambroise e a grande capacidade do escritor em contar com poesia estas histórias fantásticas de mestiçagem.

Kivi

segunda-feira, agosto 17, 2009

Comprar livros no Reino Unido

Quando vim viver para o Reino Unido esperei encontrar um bocadinho de Londres em todas as terras, com as suas livrarias tão especiais que vão desde o franchising à pequenina e velhinha loja de livros improváveis e interessantes. A verdade é que Londres é Londres, e o resto é conversa (com a excepção da mítica capital dos livros Hay-on-Wye). Lojinhas de livros não há em lado nenhum e as que haviam foram comidas pelas multinacionais Borders e Waterstones. É sempre possível encontrar uns livros em segunda mão em algumas lojas de caridade e nas “feiras da Ladra”, mas sem a mesma dignidade de uma livraria com um dono orgulhoso que tenha dedicado a vida à profissão. Também nos hipermercados é possível encontrar as últimas novidades. Não é que não me não goste da Borders e da Waterstones, mas na falta de concorrência tira a piada toda que é ter acesso a todo o tipo de lojas dedicadas à literatura que se esperaria de um país em que todos os autores são traduzidos para a língua natal. A Borders tem um formato parecido com o da FNAC mas sem tanta variedade (e não tem hardware nem equipamentos de som e fotografia) e a Waterstones é mais dedicada às últimas novidades e à literatura infantil. Tanto uma como a outra tentam disfarçar o facto de serem franchisings e fazem de conta que os funcionários são especialistas em livros para que o cliente sinta que vale a pena comprar na loja e não na Internet. Temos como exemplo o acesso às opiniões escritas à mão dos funcionários. Na perspectiva do cliente estas tentativas são agradáveis, mas acabam por ser uma ilusão, já que a única alternativa existente é a maior livraria de todas, a Amazon.uk, que também ajudou à extinção das livrarias pequenas pela facilidade de utilização e pelos preços baixos, mas que torna a compra de um livro um acto privado sem interacção social e contacto físico com loja/livros.

A Saga Twilight de Stephenie Meyer - um caso de sucesso de vampiros civilizados que não dormem em caixões

Sim, devorei a saga twilight, que é constituída por quatro livros: “Twilight” (“Crepúsculo”), “New moon” (“Lua nova”), “Eclipse” e “Breaking down” (“Amanhecer”). Nas versões de capa dura isto dá 544+608+640+768 páginas!
Porque é que esta saga teve tanto sucesso?
Primeiro tem os ingredientes certos:
- vampiros (pela sugestão que vai acontecer alguma coisa de excitante);
- adolescente infeliz e anti-social apaixonada por um amor teoricamente impossível (alguns fãs equiparam a saga a “Romeu e Julieta”);
- vampiro jeitoso e personificação do “namorado que todas queriam ter”;
- vampiros maus que não descansam enquanto não matarem a heroína indefesa;
- lobisomens feios que não gostam de vampiros mas que gostam muito de quem os vampiros gostam;
- tipo de escrita viciante (faz lembrar a saga Harry Potter).

O número de páginas dedicadas à acção e confronto entre vampiros é muito reduzido em toda a saga. O mais característico da escrita de Stephenie Meyer é a insegurança das personagens do tipo “será que o vou ver hoje?” e “o que será que ele está a pensar?”
Porque é que me dei ao trabalho de ler esta saga? A saga é de leitura muito fácil especialmente para quem quer ler em inglês. O vocabulário é do mais básico que há, ao contrário do Harry Potter que é bastante mais descritivo e elaborado. Acaba por ser a leitura ideal quando não temos capacidade para ler nada de complicado, sendo absorvente o suficiente para nos fazer viajar para outro mundo. Serve muito bem a função de livro para ler no aeroporto, na praia ou quando ao fim do dia de trabalho estamos tão cansados que não conseguimos ler nada de complicado. No fundo pode dizer-se que sabe bem e é altamente viciante. A escrita é muito honesta e a história é muito simples (mas não previsível). A personagem principal Bella Swan é uma sofredora nata em todos os sentidos e durante 4 livros acompanhamos a sua evolução de forma muito íntima sem às vezes concordarmos com ela (tememos pelas suas decisões). O vampiro principal (Edward) tem a capacidade de ouvir os pensamentos de toda a gente à excepção de Bella Swan, e sendo muito cauteloso temos dificuldade em compreendê-lo e confiar nele (“too good to be true”). Stephenie Meyer tentou combater esse lapso começando a escrever a versão “Twilight” do ponto de vista do vampiro Edward. Porém, o rascunho foi publicado na Internet sem a sua autorização levando a autora a desistir do projecto para infelicidade dos fãs (“Midnight Sun” partial draft é agora disponibilizado no site oficial da autora). O rascunho foi altamente criticado porque os fãs não se tinham dado conta da obsessão do vampiro por Bella.
O primeiro livro é o mais interessante porque é a descoberta mútua das personagens principais. Os seguintes acabam por ser continuações com a introdução de novos elementos (como os lobisomens). O último livro “Breaking Down” foi uma decepção para os fãs de Meyer, que ao apropriarem-se das personagens não gostaram das decisões que estas tomaram e não aceitaram a liberdade da escritora de enveredar por outros caminhos. O livro foi tão atacado e a escritora tão desacreditada numa escala aparentemente ridícula para quem ambiciona apenas escrever uma novela de vampiros sem funções sociais. Foi acusada de incitar a pedofilia e as posições anti-aborto! Confesso que o último livro me entediou um bocado pela falta de ritmo e por haver 300 páginas sem qualquer acção. O rumo que a autora escolheu para o último livro é perfeitamente aceitável para o género novelesco mas os fãs não a perdoaram, querendo apenas mais uma história dos perigos inerentes a uma relação humano-vampiro. Concordo que o último livro poderia ser mais interessante, mas se formos a pensar nisso, toda a saga poderia ser mais interessante se tivesse outra autora, outras personagens e outro argumento, como todos os livros do mundo!! Stephenie Meyer não quis fazer do 4º livro mais do mesmo e apeteceu-lhe jogar com as possibilidades. É interessante ver como nesta saga os fãs tentaram manipular a autora ao máximo e como ficaram tão desiludidos com Bella Swan (que queriam que fosse previsível do princípio ao fim).
Recomendo a saga para aquelas alturas em temos a necessidade de ler alguma coisa light e viciante, e que saibamos que não teremos aquele sentimento incomodativo de culpa por perder umas tantas horas com literatura de “passar tempo”.

domingo, agosto 16, 2009


Diego e Frida

J.M.G LeClésio


Foi sem grande entusiasmo que me esforcei para ler este livro, fazendo-o num exercício de disciplina e de alguma obrigação já que me tinha sido emprestado. É que em boa verdade já conhecia as suas histórias de vida ou julgava conhecer. Mas valeu a leitura.
O que me ficou deste romance biográfico, foi o amor recíproco e incondicional deste casal, mesmo quando atravessado de tantos reveses e de separações físicas. Assume-se ainda o amor pelos índios, pela civilização pré – espânica, plasmado numa história de resistência de ambos os artistas contra a globalização e mesmo contra os USA. Clésio identifica-se com a vida dos dois pintores, já que a sua humilde vida literária tem sido dedicada à expressão da luta dos povos oprimidos. Em Frida é a procura integral física e mental da integridade dos oprimidos, da sede da verdade e da libertação da alienação do povo. O compromisso político de Frida e de Diego estão presentes ao longo da vida , apesar das grandes contradições e das posições polémicas de Diego (recorde-se que trabalhou e admirou o industrial de Detroit – Henry Ford). Não renegou essa admiração por esse império industrial e descrevia as oficinas como uma sinfonia para os seus ouvidos.É em Tehuantepec que Diego foi buscar as imagens fortes, as paisagens do éden, as mulheres de cabeleiras cor de ébano. Frida vai seguir o modelo das mulheres de Tehuana, veste-se, penteia-se e fala como elas.
Diego é o ogre (assim o designava Frida), a sua revolução é individualista, oscila entre a fé nos E.U e a União Soviética. Ele é colérico, violento na crítica, o monstro sedutor, oscila entre a acção e a crítica, a aventura, o poder e o dinheiro. Ela é a simplicidade, a determinação, a solidão, o amor abnegado. No seu diário escreve:
“Diego, começo
Diego, construtor
Diego, minha criança
Diego, meu noivo
Diego, pintor
Diego, meu amante
Diego, meu marido
Diego, minha mãe
Diego, meu pai
Diego, meu filho
eu
universo
Diversidade na unidade
Mas porque eu digo Meu Diego
Ele nunca será meu. Ele só pertence a si próprio"

Kivi

quinta-feira, agosto 06, 2009

Leituras de Verão (ou a velhice, a morte e a violência)

Para contrariar a ideia das "leituras leves" para o Verão, para as minhas (mini)férias escolhi temas um bocado pesadotes. Começando com a velhice:

Philip Roth - Exit Ghost (O Fantasma Sai de Cena)

Um escritor de 70 anos, deixado impotente e incontinente por uma operação à próstata, vive isolado do mundo há mais de 10 anos, por opção própria. Um dia, de forma impulsiva, decide regressar a New York para se submeter a uma nova intervenção cirúrgica que lhe poderá (não há garantias) permitir recuperar pelo menos a continência.
E de repente é como se tivesse regressado à vida, a tudo o que deixou para trás numa tentativa de se proteger e, embora saiba que é um erro, decide ficar em NY mais algum tempo e acaba por se expôr a contactos para os quais já não está preparado e não tem quaisquer defesas: estar na mesma sala com uma mulher; discutir com um jovem escritor determinado; viver no mundo actual. Neste confronto entre ele e o mundo, é evidente quem é que vai sair magoado.
A partir de metade do livro vamos lendo alternadamente o que realmente acontece e os diálogos que ele escreve quando chega a casa, tal como poderiam ter acontecido.
Esta é uma viagem ao mais íntimo da fragilidade humana, pela mão do mesmo Philip Roth que nos deu The Dying Animal (O Animal Moribundo), que acabei de revisitar na excelente adaptação cinematográfica Elegy (filme que aproveito para recomendar).


Christopher Belshaw - Annihilation:
The Sense and Significance of Death


O último livro deste filósofo contemporâneo (que também editou 12 Modern Philosophers, uma boa introdução a alguns dos nomes mais importantes da filosofia contemporânea de língua inglesa, mas que inexplicavelmente não inclui o meu filósofo favorito, Daniel C. Dennett), não é um livro pesado nem deprimente, ao contrário do que possa parecer.
O autor começa por analisar o que é a morte em geral. Antes de mais, é um processo biológico. O autor apresenta a sua própria definição: a morte é "a perda irreversível de funcionamento do organismo como um todo". Mas depois aparecem complicações: o que é um organismo? Uma semente, um fruto, um órgão, as células do nosso corpo, será que podemos dizer que estas coisas estão vivas? Pode-se deixar de existir sem morrer? As bactérias fazem-no todos os dias, quando se dividem. E quanto a irreversível? Uma paragem cardio-respiratória antigamente era sempre irreversível porque tecnologicamente não era possível reanimar essas pessoas, mas agora já é. Então passamos a considerar que a pessoa morre só quando falham os esforços para a reanimar. Então a definição de morte varia com a tecnologia disponível, ou variam apenas os critérios pelos quais conseguimos identificá-la?
A parte mais interessante do livro não é sobre estas questões de definição, mas sim as tentativas de resposta à pergunta: a morte é uma coisa má? É certamente mau para as pessoas próximas, que continuam vivas e vão sofrer psicologicamente com a perda, mas e para o próprio? E se considerarmos que é má para a pessoa que morre, é má em que sentido? Para os Epicuristas, a morte não podia ser boa nem má, uma vez que "quando ainda somos, a morte ainda não chegou; e quando chega, já não somos". De facto, embora pareça intuitivamente que a morte é uma coisa má, não é fácil explicar em que medida é que ela prejudica o indivíduo que morre, uma vez que assim que a pessoa morre já nada de bom ou mau lhe pode acontecer. Podemos no entanto, sem qualquer dificuldade, considerar que a morte, na maior parte dos casos, vai contra o nosso interesse em permanecermos vivos, priva-nos de boas experiências que poderíamos vir a ter, e impede-nos de prosseguirmos os nossos planos para o futuro, portanto prejudica-nos.
Estas e muitas outras questões, algumas reais (o coma, o estado vegetativo persistente, etc), outras baseadas em cenários hipotéticos, são esmiuçadas por Christopher Belshaw, que comenta também as opiniões de outras pessoas que escreveram sobre o tema. Achei um livro muito estimulante, e embora não concorde com todas as opiniões do autor, fez-me repensar as minhas ideias, que eu achava que estavam tão bem definidas...


Jonathan Gotschall - The Rape of Troy: Evolution, Violence, and the World of Homer

Jonathan Gotschall propõe-se revolucionar os estudos literários trazendo para esta área em que já quase tudo foi dito, uma ferramenta ainda muito pouco (correctamente) aproveitada pelas humanidades: a biologia. Mais especificamente, a psicologia evolutiva, que ajuda a explicar algumas facetas do comportamento humano com base no seu significado evolutivo (por exemplo, a nossa preferência por alimentos hipercalóricos era muito vantajosa para os nossos antepassados na pré-história, e consequentemente ainda temos essa propensão, embora actualmente só nos prejudique).
Neste caso em particular, o autor debruça-se sobre a Ilíada e a Odisseia, épicos que trazem à luz a vida destas pessoas que viviam num tempo bem mais violento que o nosso, em que dos homens era esperado que prezassem acima de tudo a guerra e das mulheres esperava-se modéstia, fidelidade e que parissem muitos filhos.
A uma certa tendência masculina para a agressividade e para a competição com outros homens juntam-se outros factores, como o baixo número de mulheres disponíveis (devido a práticas culturais como o infanticídio e a poligamia), para gerar uma situação de guerras quase constantes, de insegurança e instabilidade permanentes. As populações estavam constantemente em risco de serem atacadas por populações vizinhas, o que geralmente significava a morte para todos os homens e a escravatura para as mulheres e crianças. Estas condições de vida por sua vez influenciavam as escolhas que as pessoas faziam mediante as (poucas) alternativas que tinham.
Um estudo sobre literatura que é ao mesmo tempo um estudo sobre os gregos e a vida das pessoas na antiguidade que é ao mesmo tempo um estudo sobre a natureza humana.
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Aproveito para acrescentar que os últimos dois livros que referi foram comprados na Livraria Leitura, no Porto, que podia ser melhor mas que ainda assim sempre vai tendo algumas novidades interessantes e que não se encontram na FNAC.

domingo, maio 17, 2009



A Solidão dos Números Primos
Paulo Giordano

Dois jovens que sofreram um episódio traumático na sua infância vêm na adolescência a cruzar acidentalmente as suas vidas e a ficaram próximos, sem todavia conseguirem unir-se. Sendo o autor um jovem doutorado em Física, a sua formação científica pontua este seu romance, orientado que é pela metáfora dos números primos e dos primos gémeos. É assim que escreve “São pares de números próximos um do outro, aliás quase próximos, pois entre eles existe um número par que os impede de se tocarem realmente…números, por exemplo, 11 e 13, 17 e 19, 41 e 43…descobrem-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado feito apenas de cifras e nota-se o pressentimento angustiante de que os pares encontrados até aí foram um facto acidental, cujo verdadeiro destino é o de ficarem sozinhos…”Alice e Mattia vivem também a sua solidão e com registos de desadaptação diferenciada, ela procurando atenção, ele fugindo de qualquer contacto social. Estão tão próximos, sós e perdidos, mas não o suficiente para se tocarem. É uma história muito original, que regista episódios ocorridos na infância que normalmente são ocultados e que atravessa os tormentos da adolescência: a procura incessante da aceitação, a rejeição da imagem física, a somatização da ansiedade no corpo mutilado, a anorexia, etc. Depois é um livro que está bem escrito, sugestivo e que se lê muito bem. Gostei.

Kivi

domingo, março 15, 2009


A Sombra do Vento
Carlos Ruiz Zafón

Muito bem escrito, é uma história que se abre em várias histórias, uma mistura de romance policial com novela de amor e com enquadramento histórico de uma Espanha franquista. A acção decorre em 1945, numa cidade velha –Barcelona. Daniel Sampere é um miúdo , a quem o pai, livreiro, o leva a visitar um misterioso e oculto lugar “dos livros esquecidos” e onde ele traz o livro - A sombra do Vento, de Julian Carax, um escritor misterioso e esquecido. A posse deste livro proibido vai ser o motor deste romance, de inspiração fantástica e com nuances góticas e em que o jovem se enreda numa trama de pistas onde as portas de entradas são também de saída. Vale sobretudo por ser uma homenagem aos livros e aos leitores e indubitavelmente o escritor espanhol é um bom contador de histórias.

Kivi

domingo, fevereiro 08, 2009


Halldór Laxness - Gente Independente

Não me recordo nos tempos mais próximos de ter demorado tanto para ler um livro sem ter qualquer sentimento de desagrado contra ele. Se calhar teve mesmo que ser assim, porque não saltei nenhuma página e apesar da minha má memória consegui sempre reconstitui-lo. É um romance soberbo, inesquecível, mas que marca pela tristeza da paisagem, pelo frio glaciar que nos contamina, pela humidade dos corpos, pela pobreza. Tem lugar na Islândia, no início do século XX. De acordo com a lenda islandesa, quando os noruegueses ocuparam as terras da Islândia (que eram muito férteis) o feiticeiro islandês Kolumkilli amaldiçoou os novos habitantes, rogando que jamais gozariam de prosperidade.
É um hino à humanidade, à independência e à natureza inclemente e ao trabalho do homem. Trata-se da vida de um agricultor independente, Bjantur das Casas de Verão que escreve rimas e as ensina aos seus filhos e que na sua charneca luta heróica e obstinadamente para ser independente. Ele não confia em ninguém, só nos seus animais (as suas ovelhas valem mais que o Homem). Mas afinal ele trabalha dia e noite no campo do inimigo: primeiro é o diabo que atormenta, Kolumkilli, depois é o poder financeiro que põe os pobres nas suas mãos. Por esta razão é também um romance irónico. Não é por acaso que uma das personagens se refere a que o maior crime consiste em as "autoridades" deixarem os homens viver em vez de os deixarem morrer.
Em 1955 Laxness foi Prémio Nobel e está consagrado na Islândia como uma lenda.

quinta-feira, setembro 25, 2008



Persepolis - Marjane Satrapi

Persepolis trata-se da banda desenhada autobiográfica da iraniana Marjane Satrapi. O livro encontra-se à venda na FNAC (em inglês) e é constituído por duas partes, The Story of a Chilhood e The Story of a Return, não tendo interesse ler uma parte sem a outra (um pouco à semelhança de Maus de Art Spigelman). Na primeira parte Marjane forma a sua identidade por entre as contradições do que a sua família representa na luta pela liberdade e do que ela absorve na escola e no mundo exterior. Uma vez que Marjane se torna numa jovem demasiado rebelde para o regime instaurado e incapaz de conter os seus valores de igualdade/justiça, os seus pais, numa tentativa de salvá-la de uma provável execução/tortura, enviam-na para um colégio francês em Viena de Áustria. A nova vida de Marjane revela-se um pesadelo, com a sua incapacidade de se adaptar ao estilo europeu mantendo a identidade iraniana. Na segunda parte do livro Marjane volta para o Irão para junto da família, mas as contradições continuam e ela tem de aprender a viver de novo com o véu e com o regime repressivo.
O livro é muito interessante mas ao mesmo tempo muito deprimente, mesmo com todo o humor derivado da ridicularização da vida no Irão (os mártires, o véu, a guerra contra o Iraque, etc.). Mas dentro do que é a história de guerra e opressão religiosa num país que outrora tinha sido tão rico e culturalmente inteligente, dificilmente se teria conseguido uma história mais bem disposta, uma vez que temos acesso ao crescimento de uma pessoa num ambiente que nos é tantas vezes mostrado apenas na perspectiva ocidentalizada. Vi o filme correspondente há pouco tempo e achei-o muito bem conseguido, e talvez devido ao factor surpresa gostei mais do filme do que o livro.

sexta-feira, setembro 05, 2008



A Estrada - Cormac McCarthy




Este foi o primeiro livro que li de C. McCarthy e deixou-me confusa quanto à simples opinião do gostar ou não gostar.
A história é excelente. A forma como é contada é um tanto aborrecida.
EUA. Um pai e um filho. A quase total aniquilação de tudo o que é vivo. Só a esperança de que o dia de amanhã vai chegar.
O autor não revela o que aconteceu para estarmos num mundo sem sol, sem animais, sem plantas, com o mar, a chuva e a neve cinzentos, com pessoas (poucas) famintas ao ponto do canibalismo. E um pai e um filho caminham ao longo da estrada, esforçando-se para fazerem parte "dos bons", dos que não comem outras pessoas, dos que passam fome durante dias até encontrarem uma casa abandonada (como todas) com comida enlatada de validade duvidosa.
A inocência da criança que contrasta com o mundo que é descrito. E a coragem do pai, coragem para querer viver, quando nada faz sentido, nada existe que dê vontade de viver. A não ser, o pai, e o filho.
"Este é o meu filho, disse. Lavo-lhe o cabelo, sujo com os miolos de um morto. É a tarefa que me cabe."
Durante todo o livro é comovente a ligação entre estes dois. Daí que quando no fim do livro um deles morre e o outro continua, desvaloriza essa ligação.
Se conforme a Ssachy escreveu, esta história for para o grande ecrã, espero que seja bastante adaptada, dado que não há propriamente muita acção. Fico a aguardar.

quarta-feira, setembro 03, 2008



Rosa Lobato de Faria
O Prenúncio das águas

Associando a escritora ao mundo das novelas da televisão e canções para a Eurovisão e outras coisas menos interessantes (se assim quisermos falar), como ter sido a autora do hino do CDS, foi uma verdadeira surpresa a leitura deste livro, que me tendo sido aconselhado só o li por dever a cumprir e por alguma expectativa de que a conselheira, pessoa que estimo pelo conhecimento da literatura, me não iria enganar.
E é assim que a ignorância alimenta a injustiça, pelo que me redimo pela minha atitude. A sua versatilidade provem assim da sua inteligência e ao que parece, dela não fará publicidade.
É uma escrita feminina, com registo de sentimentos fortes –ciúmes, inveja, traição, etc, de um Portugal rico de lendas, de pequenas histórias de encantamentos como a a felidona (igual a lobisomem, na versão feminina), ou a moça-encantada-em-cobra (cobra meia bicho, meia mulher), enfim de um universo em que a fantasia e a realidade se cruzam ao longo do livro. Há três irmãs muito infelizes, uma jornalista regressada de França, um macho garanhão, um doutor apaixonado, uma velha bruxa de cajado de pau de marmeleiro, que se movem numa aldeia alentejana chamada Rio do Anjo, que tal como a Aldeia da Luz, vai ser condenada a ser submersa pelas águas do rio. A Aldeia do Luto será o nome dado ao novo espaço, face à recusa passiva do povo à mudança. Com grande domínio da escrita, a história vai sendo descoberta pelo leitor e à medida que as suas personagens vão falando de si. Depois há aquele anjo que voa com a velha cansada até ao paraíso…

Kivi

segunda-feira, setembro 01, 2008


Eric Weiner – A Geografia da Felicidade

À primeira vista parece um livro lamechas sobre a busca da felicidade. Eric Weiner resolveu fazer uma viagem pelas diferentes sociedades e para tentar entender o que realmente torna uma sociedade feliz. Os países escolhidos foram a Holanda, a Suiça, o Butão, o Qatar, a Islândia, a Moldávia, a Tailândia, a Grã-Bretanha, a Índia e os EUA. Eric não visitou os países onde as necessidades básicas do cidadão não são satisfeitas porque aí obviamente que não há grande felicidade. Comprei este livro porque tive curiosidade sobre o que Eric Weiner tinha a dizer sobre a Grã-Bretanha.

O livro conquista qualquer pessoa que goste de literatura de viagens, especialmente porque os países escolhidos são tão diferentes uns dos outros. É como viajar sem sair de casa. Por outro lado, estamos a viajar dentro da mente de um jornalista americano com todas as implicações que isso acarreta, como a subjectividade e a dificuldade em livrar-se de estereótipos. Em muitos destes países Eric não passa tempo suficiente para fazer uma análise fidedigna. Notamos isso relativamente à Grã-bretanha. Apesar de todas estas limitações vale a pena ler o livro. Quando o terminei fiquei insatisfeita com o fim da “viagem”, gostaria que Eric fosse a mais locais interagir com as pessoas e confrontá-las com o seu modo de vida.

Em relação ao tema da “felicidade”, Eric faz um bom trabalho porque não se deixa cair no âmbito da “auto-ajuda” do género “aprendam com estes ou aqueles porque eles é que sabem”. Como jornalista que é, Eric tenta recorrer a fontes credíveis (universidades) para obter dados sobre a satisfação pessoal das populações. A interacção com pessoas que o possam elucidar mais sobre cada país também faz parte da pesquisa de Eric, apesar de em alguns países não seja fácil. Resumindo um pouco o que Eric andou a fazer:

Na Holanda, teve acesso à base de dados sobre felicidade da Universidade de Roterdão que interpretou com ajuda dos investigadores, descobrindo que no mundo a maioria das pessoas é feliz.
Na Suiça Eric andou nos melhores transportes públicos do mundo e conversou com pessoas que não se importam com a quantidade de regras a que estão sujeitos, como a de não poder utilizar o autoclismo depois das 24h.
No Butão Eric sentiu-se inebriado pela atmosfera montanhosa e tentou descobrir como é que um país tão pouco “civilizado” está num dos primeiros lugares do ranking da felicidade. Descobriu que no Butão é mais importante na política a medição do FIB (Felicidade Interna Bruta) do que o PIB.
O Qatar, um dos países mais ricos do mundo, sem impostos e com uma data de regalias (os habitantes são todos ricos), Eric descobriu que o país anda a tentar comprar uma identidade e uma cultura.
Na Islândia, Eric provou a especialidade Tubarão Podre e ia morrendo com a experiência. Eric adorou o espírito cultural e artístico dos islandeses e a capacidade de resistência à escuridão auxiliada pelo álcool.
Na Moldávia Eric descobriu que o melhor que o país tem é a fruta fresca.
Na Tailândia andam todos num estado de relaxamento e as preocupações são postas sempre em último lugar no ranking dos pensamentos. Os problemas são adiados e escondidos.
Na Grã-Bretanha Eric visita a cidade votada como a mais deprimente do país, Slough, e tentou descobrir os resultados deu um Reality Show em que ensinavam técnicas para que os habitantes de Slough fossem mais felizes.
Eric viveu vários anos na Índia devido à sua profissão. Neste livro Eric fala de como a espiritualidade contribui para a felicidade dos indianos e de como a imprevisivelmente atrai todos os anos pessoas de todo o mundo para um país com tanta pobreza.
Por fim, Eric volta para os EUA e tenta analisar como tem contribuído o poder do país para o bem-estar das pessoas.

Links:

Ranking da felicidade pela Universidade de Leicester
: Portugal não está muito bem classificado…

domingo, agosto 24, 2008



Mário Cláudio - Boa Noite Senhor Soares


Estreei-me com o Mário Cláudio e gostei da sua prosa escorreita. Gostei da narrativa do romance, da Lisboa tristonha, pálida e entediante dos anos 30 que M.C parece conhecer tão bem e do mundo afectivo das personagens que falam de si não falando. Há também a vida de família e a vida miserável e silenciosa da personagem feminina.
Conheci M.C na Figueira quando apresentou este livro no dia 3 de Julho no Casino da Figueira da Foz e aí apercebi-me numa conversa animada de um homem de comunicação simples e agradável, que nesta cidade tem leitores fiéis. Dizia então M.C que quis escrever uma história com princípio, meio e fim e de uma Lisboa que conheceu bem.
A história é contada por um rapaz que vem da província, de Escalos de Cima, concelho de Idanha-a-nova - António da Silva Felício para trabalhar como aprendiz de caixeiro num armazém da rua dos Douradores. No mesmo armazém trabalha o senhor Soares, que é tradutor. O senhor Soares é um homem sombrio, esquálido, reservado, sem interesses mundanos e que sobretudo é um poeta. Gradualmente a figura do senhor Soares transforma-se no principal foco de atenção do jovem António, pela sua vida enigmática e do qual saem poucas palavras para além das boas noites dadas aos rapazes do escritório no final da noite. E é esta personagem que vai atravessar a vida deste rapaz simples e dócil, numa química de admiração e de respeito e que já na sua velhice lhe dá nome ao neto - Bernardo. M.C revisita o heterónimo de Fernando Pessoa ou melhor o seu auto designado semi–heterónimo: “O meu semi- heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenho um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa e um constante devaneio. É um semi-heterónino porque não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.” É do Livro do Desassossego que saem outros nomes para as outras personagens e é com este convite que termino.

Kivi

terça-feira, agosto 19, 2008

O Enigma de Paris – Pablo De Santis

“Paris, 1889, Exposição Universal, os Doze Detectives, os investigadores mais famosos do mundo, reúnem-se”.

O “Enigma de Paris” é um livro para quem gosta de histórias de detectives sem as ferramentas CSI e com os preconceitos presentes da época, como por exemplo, a impossibilidade das mulheres entrarem no mundo da investigação e a associação de um eventual crime com uma parte do cérebro formatada para tal desde o nascimento. A história é contada por um aprendiz (Salvatrio, de origem argentina) que tem um papel fundamental na história, provando que o melhor detective é o que se mantém longe da loucura dada pelo orgulho e arrogância da profissão. Abundam os instrumentos da época como lupas, análise de pegadas e teorias filosóficas sobre o método. Os detectives aspiram ao poder dado pela resolução dos enigmas apenas com recurso ao romantismo da arte da investigação.

O cenário consiste na exposição internacional de Paris de 1889, onde foi apresentada pela primeira vez a torre Eiffel. A ideia é dar ao leitor um cenário confuso e sombrio onde o grupo dos “Doze Detectives” se esforça por manter a credibilidade. Tirando o cenário da exposição, as personagens são todas inventadas e como são muitas acabam por se confundir umas com as outras e serem um pouco inverosímeis e idiotas. Acho que Pablo De Santis gostaria de criar atmosfera à Corto Maltese (versão Detectives em Paris), mas em vez disso arranjou um molho de personagens que depois se viraram todas contra ele exigindo papéis mais interessantes.

O livro de Pablo de Santis não é muito entusiasmante para ler nas férias. O que se salva são as investigações em si e o percurso do aprendiz Salvatrio em busca da verdade. Também foi interessante reviver o ambiente sombrio da época e relembrar como a ciência evoluiu tanto desde aí.