sábado, agosto 22, 2009


José Eduardo
Agua Lusa
BARROCO TROPICAL



Agua Lusa entusiasma-nos com as suas histórias de personagens poéticas e absurdas, numa escrita de realismo fantástico. Projectando o romance em 2020 na cidade de Luanda, faz uma viagem pelos infernos numa cidade super populosa e num país em que o petróleo já se esgotou. É o caos e o absurdo qualificado na Termiteira - o prédio em que os elevadores já não funcionam e em que habitam ricos e pobres, com a diferença de que os mais pobres, os miseráveis e os estropiados vão descendo nos andares até chegarem à cave, onde vivem como ratos, meninas - cão, feiticeiras, mendigos, catorzinhas, etc. Angola é governada por uma Presidente e um sistema corrupto impõe-se uma teia de servidores e de informadores na busca de favores e de poder.
A principal personagem, Bartolomeu Falcato é escritor e vive no 47º andar da Termiteira a sua amante- Kianda é uma cantora com carreira internacional. São ambos os narradores do romance. Bartolomeu quer desvendar um mistério –uma mulher que caiu do céu, mas esta intenção ocasiona-lhe sérios riscos erevelando-nos o abismo e o absurdo. É uma história sobre o medo e o poder, que não pode deixar de estar associada ao mau sentido de crescimento de Angola. Esse medo de falar e de ter outra opinião, está bem patenteada no Centro de Saúde Mental Tata Ambroise, em que os politicamente alegados doentes psiquiátricos estão em corredores labirínticos amarrados a motores e outras peças enferrujadas de carros desmantelados e obrigados a “tratarem-se” com chá com penas enfeitiçadas, que conduzem à hipnose e a debitar a informação pretendida. Ele como a sua avó, também acredita em anjos e tem um talento especial para a felicidade. Agua Lusa terá revelado “ Sou uma das pessoas mais felizes que já tive oportunidade de conhecer”. É bom sentir este optimismo e confiança, mas parece-me difícil compatibilizá-la com a realidade que faz sentir da cidade de Angola.
Agua Lusa, tanto no livro como na apresentação do mesmo que fez no mês de Junho no Casino da Figueira, diz, que como escritor ter sido colocado entre Coetzee e Garcia Márquez,, mas o barroco vai buscá-lo seguramente ao segundo.
O que ficou do livro foi o retrato de Luanda, o absurdo da descida aos infernos da Termiteira e do Centro Tata Ambroise e a grande capacidade do escritor em contar com poesia estas histórias fantásticas de mestiçagem.

Kivi

segunda-feira, agosto 17, 2009

Comprar livros no Reino Unido

Quando vim viver para o Reino Unido esperei encontrar um bocadinho de Londres em todas as terras, com as suas livrarias tão especiais que vão desde o franchising à pequenina e velhinha loja de livros improváveis e interessantes. A verdade é que Londres é Londres, e o resto é conversa (com a excepção da mítica capital dos livros Hay-on-Wye). Lojinhas de livros não há em lado nenhum e as que haviam foram comidas pelas multinacionais Borders e Waterstones. É sempre possível encontrar uns livros em segunda mão em algumas lojas de caridade e nas “feiras da Ladra”, mas sem a mesma dignidade de uma livraria com um dono orgulhoso que tenha dedicado a vida à profissão. Também nos hipermercados é possível encontrar as últimas novidades. Não é que não me não goste da Borders e da Waterstones, mas na falta de concorrência tira a piada toda que é ter acesso a todo o tipo de lojas dedicadas à literatura que se esperaria de um país em que todos os autores são traduzidos para a língua natal. A Borders tem um formato parecido com o da FNAC mas sem tanta variedade (e não tem hardware nem equipamentos de som e fotografia) e a Waterstones é mais dedicada às últimas novidades e à literatura infantil. Tanto uma como a outra tentam disfarçar o facto de serem franchisings e fazem de conta que os funcionários são especialistas em livros para que o cliente sinta que vale a pena comprar na loja e não na Internet. Temos como exemplo o acesso às opiniões escritas à mão dos funcionários. Na perspectiva do cliente estas tentativas são agradáveis, mas acabam por ser uma ilusão, já que a única alternativa existente é a maior livraria de todas, a Amazon.uk, que também ajudou à extinção das livrarias pequenas pela facilidade de utilização e pelos preços baixos, mas que torna a compra de um livro um acto privado sem interacção social e contacto físico com loja/livros.

A Saga Twilight de Stephenie Meyer - um caso de sucesso de vampiros civilizados que não dormem em caixões

Sim, devorei a saga twilight, que é constituída por quatro livros: “Twilight” (“Crepúsculo”), “New moon” (“Lua nova”), “Eclipse” e “Breaking down” (“Amanhecer”). Nas versões de capa dura isto dá 544+608+640+768 páginas!
Porque é que esta saga teve tanto sucesso?
Primeiro tem os ingredientes certos:
- vampiros (pela sugestão que vai acontecer alguma coisa de excitante);
- adolescente infeliz e anti-social apaixonada por um amor teoricamente impossível (alguns fãs equiparam a saga a “Romeu e Julieta”);
- vampiro jeitoso e personificação do “namorado que todas queriam ter”;
- vampiros maus que não descansam enquanto não matarem a heroína indefesa;
- lobisomens feios que não gostam de vampiros mas que gostam muito de quem os vampiros gostam;
- tipo de escrita viciante (faz lembrar a saga Harry Potter).

O número de páginas dedicadas à acção e confronto entre vampiros é muito reduzido em toda a saga. O mais característico da escrita de Stephenie Meyer é a insegurança das personagens do tipo “será que o vou ver hoje?” e “o que será que ele está a pensar?”
Porque é que me dei ao trabalho de ler esta saga? A saga é de leitura muito fácil especialmente para quem quer ler em inglês. O vocabulário é do mais básico que há, ao contrário do Harry Potter que é bastante mais descritivo e elaborado. Acaba por ser a leitura ideal quando não temos capacidade para ler nada de complicado, sendo absorvente o suficiente para nos fazer viajar para outro mundo. Serve muito bem a função de livro para ler no aeroporto, na praia ou quando ao fim do dia de trabalho estamos tão cansados que não conseguimos ler nada de complicado. No fundo pode dizer-se que sabe bem e é altamente viciante. A escrita é muito honesta e a história é muito simples (mas não previsível). A personagem principal Bella Swan é uma sofredora nata em todos os sentidos e durante 4 livros acompanhamos a sua evolução de forma muito íntima sem às vezes concordarmos com ela (tememos pelas suas decisões). O vampiro principal (Edward) tem a capacidade de ouvir os pensamentos de toda a gente à excepção de Bella Swan, e sendo muito cauteloso temos dificuldade em compreendê-lo e confiar nele (“too good to be true”). Stephenie Meyer tentou combater esse lapso começando a escrever a versão “Twilight” do ponto de vista do vampiro Edward. Porém, o rascunho foi publicado na Internet sem a sua autorização levando a autora a desistir do projecto para infelicidade dos fãs (“Midnight Sun” partial draft é agora disponibilizado no site oficial da autora). O rascunho foi altamente criticado porque os fãs não se tinham dado conta da obsessão do vampiro por Bella.
O primeiro livro é o mais interessante porque é a descoberta mútua das personagens principais. Os seguintes acabam por ser continuações com a introdução de novos elementos (como os lobisomens). O último livro “Breaking Down” foi uma decepção para os fãs de Meyer, que ao apropriarem-se das personagens não gostaram das decisões que estas tomaram e não aceitaram a liberdade da escritora de enveredar por outros caminhos. O livro foi tão atacado e a escritora tão desacreditada numa escala aparentemente ridícula para quem ambiciona apenas escrever uma novela de vampiros sem funções sociais. Foi acusada de incitar a pedofilia e as posições anti-aborto! Confesso que o último livro me entediou um bocado pela falta de ritmo e por haver 300 páginas sem qualquer acção. O rumo que a autora escolheu para o último livro é perfeitamente aceitável para o género novelesco mas os fãs não a perdoaram, querendo apenas mais uma história dos perigos inerentes a uma relação humano-vampiro. Concordo que o último livro poderia ser mais interessante, mas se formos a pensar nisso, toda a saga poderia ser mais interessante se tivesse outra autora, outras personagens e outro argumento, como todos os livros do mundo!! Stephenie Meyer não quis fazer do 4º livro mais do mesmo e apeteceu-lhe jogar com as possibilidades. É interessante ver como nesta saga os fãs tentaram manipular a autora ao máximo e como ficaram tão desiludidos com Bella Swan (que queriam que fosse previsível do princípio ao fim).
Recomendo a saga para aquelas alturas em temos a necessidade de ler alguma coisa light e viciante, e que saibamos que não teremos aquele sentimento incomodativo de culpa por perder umas tantas horas com literatura de “passar tempo”.

domingo, agosto 16, 2009


Diego e Frida

J.M.G LeClésio


Foi sem grande entusiasmo que me esforcei para ler este livro, fazendo-o num exercício de disciplina e de alguma obrigação já que me tinha sido emprestado. É que em boa verdade já conhecia as suas histórias de vida ou julgava conhecer. Mas valeu a leitura.
O que me ficou deste romance biográfico, foi o amor recíproco e incondicional deste casal, mesmo quando atravessado de tantos reveses e de separações físicas. Assume-se ainda o amor pelos índios, pela civilização pré – espânica, plasmado numa história de resistência de ambos os artistas contra a globalização e mesmo contra os USA. Clésio identifica-se com a vida dos dois pintores, já que a sua humilde vida literária tem sido dedicada à expressão da luta dos povos oprimidos. Em Frida é a procura integral física e mental da integridade dos oprimidos, da sede da verdade e da libertação da alienação do povo. O compromisso político de Frida e de Diego estão presentes ao longo da vida , apesar das grandes contradições e das posições polémicas de Diego (recorde-se que trabalhou e admirou o industrial de Detroit – Henry Ford). Não renegou essa admiração por esse império industrial e descrevia as oficinas como uma sinfonia para os seus ouvidos.É em Tehuantepec que Diego foi buscar as imagens fortes, as paisagens do éden, as mulheres de cabeleiras cor de ébano. Frida vai seguir o modelo das mulheres de Tehuana, veste-se, penteia-se e fala como elas.
Diego é o ogre (assim o designava Frida), a sua revolução é individualista, oscila entre a fé nos E.U e a União Soviética. Ele é colérico, violento na crítica, o monstro sedutor, oscila entre a acção e a crítica, a aventura, o poder e o dinheiro. Ela é a simplicidade, a determinação, a solidão, o amor abnegado. No seu diário escreve:
Diego, começo
Diego, construtor
Diego, minha criança
Diego, meu noivo
Diego, pintor
Diego, meu amante
Diego, meu marido
Diego, minha mãe
Diego, meu pai
Diego, meu filho
eu
universo
Diversidade na unidade
Mas porque eu digo Meu Diego
Ele nunca será meu. Ele só pertence a si próprio"

Kivi

quinta-feira, agosto 06, 2009

Leituras de Verão (ou a velhice, a morte e a violência)

Para contrariar a ideia das "leituras leves" para o Verão, para as minhas (mini)férias escolhi temas um bocado pesadotes. Começando com a velhice:

Philip Roth - Exit Ghost (O Fantasma Sai de Cena)

Um escritor de 70 anos, deixado impotente e incontinente por uma operação à próstata, vive isolado do mundo há mais de 10 anos, por opção própria. Um dia, de forma impulsiva, decide regressar a New York para se submeter a uma nova intervenção cirúrgica que lhe poderá (não há garantias) permitir recuperar pelo menos a continência.
E de repente é como se tivesse regressado à vida, a tudo o que deixou para trás numa tentativa de se proteger e, embora saiba que é um erro, decide ficar em NY mais algum tempo e acaba por se expôr a contactos para os quais já não está preparado e não tem quaisquer defesas: estar na mesma sala com uma mulher; discutir com um jovem escritor determinado; viver no mundo actual. Neste confronto entre ele e o mundo, é evidente quem é que vai sair magoado.
A partir de metade do livro vamos lendo alternadamente o que realmente acontece e os diálogos que ele escreve quando chega a casa, tal como poderiam ter acontecido.
Esta é uma viagem ao mais íntimo da fragilidade humana, pela mão do mesmo Philip Roth que nos deu The Dying Animal (O Animal Moribundo), que acabei de revisitar na excelente adaptação cinematográfica Elegy (filme que aproveito para recomendar).


Christopher Belshaw - Annihilation:
The Sense and Significance of Death


O último livro deste filósofo contemporâneo (que também editou 12 Modern Philosophers, uma boa introdução a alguns dos nomes mais importantes da filosofia contemporânea de língua inglesa, mas que inexplicavelmente não inclui o meu filósofo favorito, Daniel C. Dennett), não é um livro pesado nem deprimente, ao contrário do que possa parecer.
O autor começa por analisar o que é a morte em geral. Antes de mais, é um processo biológico. O autor apresenta a sua própria definição: a morte é "a perda irreversível de funcionamento do organismo como um todo". Mas depois aparecem complicações: o que é um organismo? Uma semente, um fruto, um órgão, as células do nosso corpo, será que podemos dizer que estas coisas estão vivas? Pode-se deixar de existir sem morrer? As bactérias fazem-no todos os dias, quando se dividem. E quanto a irreversível? Uma paragem cardio-respiratória antigamente era sempre irreversível porque tecnologicamente não era possível reanimar essas pessoas, mas agora já é. Então passamos a considerar que a pessoa morre só quando falham os esforços para a reanimar. Então a definição de morte varia com a tecnologia disponível, ou variam apenas os critérios pelos quais conseguimos identificá-la?
A parte mais interessante do livro não é sobre estas questões de definição, mas sim as tentativas de resposta à pergunta: a morte é uma coisa má? É certamente mau para as pessoas próximas, que continuam vivas e vão sofrer psicologicamente com a perda, mas e para o próprio? E se considerarmos que é má para a pessoa que morre, é má em que sentido? Para os Epicuristas, a morte não podia ser boa nem má, uma vez que "quando ainda somos, a morte ainda não chegou; e quando chega, já não somos". De facto, embora pareça intuitivamente que a morte é uma coisa má, não é fácil explicar em que medida é que ela prejudica o indivíduo que morre, uma vez que assim que a pessoa morre já nada de bom ou mau lhe pode acontecer. Podemos no entanto, sem qualquer dificuldade, considerar que a morte, na maior parte dos casos, vai contra o nosso interesse em permanecermos vivos, priva-nos de boas experiências que poderíamos vir a ter, e impede-nos de prosseguirmos os nossos planos para o futuro, portanto prejudica-nos.
Estas e muitas outras questões, algumas reais (o coma, o estado vegetativo persistente, etc), outras baseadas em cenários hipotéticos, são esmiuçadas por Christopher Belshaw, que comenta também as opiniões de outras pessoas que escreveram sobre o tema. Achei um livro muito estimulante, e embora não concorde com todas as opiniões do autor, fez-me repensar as minhas ideias, que eu achava que estavam tão bem definidas...


Jonathan Gotschall - The Rape of Troy: Evolution, Violence, and the World of Homer

Jonathan Gotschall propõe-se revolucionar os estudos literários trazendo para esta área em que já quase tudo foi dito, uma ferramenta ainda muito pouco (correctamente) aproveitada pelas humanidades: a biologia. Mais especificamente, a psicologia evolutiva, que ajuda a explicar algumas facetas do comportamento humano com base no seu significado evolutivo (por exemplo, a nossa preferência por alimentos hipercalóricos era muito vantajosa para os nossos antepassados na pré-história, e consequentemente ainda temos essa propensão, embora actualmente só nos prejudique).
Neste caso em particular, o autor debruça-se sobre a Ilíada e a Odisseia, épicos que trazem à luz a vida destas pessoas que viviam num tempo bem mais violento que o nosso, em que dos homens era esperado que prezassem acima de tudo a guerra e das mulheres esperava-se modéstia, fidelidade e que parissem muitos filhos.
A uma certa tendência masculina para a agressividade e para a competição com outros homens juntam-se outros factores, como o baixo número de mulheres disponíveis (devido a práticas culturais como o infanticídio e a poligamia), para gerar uma situação de guerras quase constantes, de insegurança e instabilidade permanentes. As populações estavam constantemente em risco de serem atacadas por populações vizinhas, o que geralmente significava a morte para todos os homens e a escravatura para as mulheres e crianças. Estas condições de vida por sua vez influenciavam as escolhas que as pessoas faziam mediante as (poucas) alternativas que tinham.
Um estudo sobre literatura que é ao mesmo tempo um estudo sobre os gregos e a vida das pessoas na antiguidade que é ao mesmo tempo um estudo sobre a natureza humana.
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Aproveito para acrescentar que os últimos dois livros que referi foram comprados na Livraria Leitura, no Porto, que podia ser melhor mas que ainda assim sempre vai tendo algumas novidades interessantes e que não se encontram na FNAC.

domingo, maio 17, 2009



A Solidão dos Números Primos
Paulo Giordano

Dois jovens que sofreram um episódio traumático na sua infância vêm na adolescência a cruzar acidentalmente as suas vidas e a ficaram próximos, sem todavia conseguirem unir-se. Sendo o autor um jovem doutorado em Física, a sua formação científica pontua este seu romance, orientado que é pela metáfora dos números primos e dos primos gémeos. É assim que escreve “São pares de números próximos um do outro, aliás quase próximos, pois entre eles existe um número par que os impede de se tocarem realmente…números, por exemplo, 11 e 13, 17 e 19, 41 e 43…descobrem-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado feito apenas de cifras e nota-se o pressentimento angustiante de que os pares encontrados até aí foram um facto acidental, cujo verdadeiro destino é o de ficarem sozinhos…”Alice e Mattia vivem também a sua solidão e com registos de desadaptação diferenciada, ela procurando atenção, ele fugindo de qualquer contacto social. Estão tão próximos, sós e perdidos, mas não o suficiente para se tocarem. É uma história muito original, que regista episódios ocorridos na infância que normalmente são ocultados e que atravessa os tormentos da adolescência: a procura incessante da aceitação, a rejeição da imagem física, a somatização da ansiedade no corpo mutilado, a anorexia, etc. Depois é um livro que está bem escrito, sugestivo e que se lê muito bem. Gostei.

Kivi

domingo, março 15, 2009


A Sombra do Vento
Carlos Ruiz Zafón

Muito bem escrito, é uma história que se abre em várias histórias, uma mistura de romance policial com novela de amor e com enquadramento histórico de uma Espanha franquista. A acção decorre em 1945, numa cidade velha –Barcelona. Daniel Sampere é um miúdo , a quem o pai, livreiro, o leva a visitar um misterioso e oculto lugar “dos livros esquecidos” e onde ele traz o livro - A sombra do Vento, de Julian Carax, um escritor misterioso e esquecido. A posse deste livro proibido vai ser o motor deste romance, de inspiração fantástica e com nuances góticas e em que o jovem se enreda numa trama de pistas onde as portas de entradas são também de saída. Vale sobretudo por ser uma homenagem aos livros e aos leitores e indubitavelmente o escritor espanhol é um bom contador de histórias.

Kivi

domingo, fevereiro 08, 2009


Halldór Laxness - Gente Independente

Não me recordo nos tempos mais próximos de ter demorado tanto para ler um livro sem ter qualquer sentimento de desagrado contra ele. Se calhar teve mesmo que ser assim, porque não saltei nenhuma página e apesar da minha má memória consegui sempre reconstitui-lo. É um romance soberbo, inesquecível, mas que marca pela tristeza da paisagem, pelo frio glaciar que nos contamina, pela humidade dos corpos, pela pobreza. Tem lugar na Islândia, no início do século XX. De acordo com a lenda islandesa, quando os noruegueses ocuparam as terras da Islândia (que eram muito férteis) o feiticeiro islandês Kolumkilli amaldiçoou os novos habitantes, rogando que jamais gozariam de prosperidade.
É um hino à humanidade, à independência e à natureza inclemente e ao trabalho do homem. Trata-se da vida de um agricultor independente, Bjantur das Casas de Verão que escreve rimas e as ensina aos seus filhos e que na sua charneca luta heróica e obstinadamente para ser independente. Ele não confia em ninguém, só nos seus animais (as suas ovelhas valem mais que o Homem). Mas afinal ele trabalha dia e noite no campo do inimigo: primeiro é o diabo que atormenta, Kolumkilli, depois é o poder financeiro que põe os pobres nas suas mãos. Por esta razão é também um romance irónico. Não é por acaso que uma das personagens se refere a que o maior crime consiste em as "autoridades" deixarem os homens viver em vez de os deixarem morrer.
Em 1955 Laxness foi Prémio Nobel e está consagrado na Islândia como uma lenda.

quinta-feira, setembro 25, 2008



Persepolis - Marjane Satrapi

Persepolis trata-se da banda desenhada autobiográfica da iraniana Marjane Satrapi. O livro encontra-se à venda na FNAC (em inglês) e é constituído por duas partes, The Story of a Chilhood e The Story of a Return, não tendo interesse ler uma parte sem a outra (um pouco à semelhança de Maus de Art Spigelman). Na primeira parte Marjane forma a sua identidade por entre as contradições do que a sua família representa na luta pela liberdade e do que ela absorve na escola e no mundo exterior. Uma vez que Marjane se torna numa jovem demasiado rebelde para o regime instaurado e incapaz de conter os seus valores de igualdade/justiça, os seus pais, numa tentativa de salvá-la de uma provável execução/tortura, enviam-na para um colégio francês em Viena de Áustria. A nova vida de Marjane revela-se um pesadelo, com a sua incapacidade de se adaptar ao estilo europeu mantendo a identidade iraniana. Na segunda parte do livro Marjane volta para o Irão para junto da família, mas as contradições continuam e ela tem de aprender a viver de novo com o véu e com o regime repressivo.
O livro é muito interessante mas ao mesmo tempo muito deprimente, mesmo com todo o humor derivado da ridicularização da vida no Irão (os mártires, o véu, a guerra contra o Iraque, etc.). Mas dentro do que é a história de guerra e opressão religiosa num país que outrora tinha sido tão rico e culturalmente inteligente, dificilmente se teria conseguido uma história mais bem disposta, uma vez que temos acesso ao crescimento de uma pessoa num ambiente que nos é tantas vezes mostrado apenas na perspectiva ocidentalizada. Vi o filme correspondente há pouco tempo e achei-o muito bem conseguido, e talvez devido ao factor surpresa gostei mais do filme do que o livro.

sexta-feira, setembro 05, 2008



A Estrada - Cormac McCarthy




Este foi o primeiro livro que li de C. McCarthy e deixou-me confusa quanto à simples opinião do gostar ou não gostar.
A história é excelente. A forma como é contada é um tanto aborrecida.
EUA. Um pai e um filho. A quase total aniquilação de tudo o que é vivo. Só a esperança de que o dia de amanhã vai chegar.
O autor não revela o que aconteceu para estarmos num mundo sem sol, sem animais, sem plantas, com o mar, a chuva e a neve cinzentos, com pessoas (poucas) famintas ao ponto do canibalismo. E um pai e um filho caminham ao longo da estrada, esforçando-se para fazerem parte "dos bons", dos que não comem outras pessoas, dos que passam fome durante dias até encontrarem uma casa abandonada (como todas) com comida enlatada de validade duvidosa.
A inocência da criança que contrasta com o mundo que é descrito. E a coragem do pai, coragem para querer viver, quando nada faz sentido, nada existe que dê vontade de viver. A não ser, o pai, e o filho.
"Este é o meu filho, disse. Lavo-lhe o cabelo, sujo com os miolos de um morto. É a tarefa que me cabe."
Durante todo o livro é comovente a ligação entre estes dois. Daí que quando no fim do livro um deles morre e o outro continua, desvaloriza essa ligação.
Se conforme a Ssachy escreveu, esta história for para o grande ecrã, espero que seja bastante adaptada, dado que não há propriamente muita acção. Fico a aguardar.

quarta-feira, setembro 03, 2008



Rosa Lobato de Faria
O Prenúncio das águas

Associando a escritora ao mundo das novelas da televisão e canções para a Eurovisão e outras coisas menos interessantes (se assim quisermos falar), como ter sido a autora do hino do CDS, foi uma verdadeira surpresa a leitura deste livro, que me tendo sido aconselhado só o li por dever a cumprir e por alguma expectativa de que a conselheira, pessoa que estimo pelo conhecimento da literatura, me não iria enganar.
E é assim que a ignorância alimenta a injustiça, pelo que me redimo pela minha atitude. A sua versatilidade provem assim da sua inteligência e ao que parece, dela não fará publicidade.
É uma escrita feminina, com registo de sentimentos fortes –ciúmes, inveja, traição, etc, de um Portugal rico de lendas, de pequenas histórias de encantamentos como a a felidona (igual a lobisomem, na versão feminina), ou a moça-encantada-em-cobra (cobra meia bicho, meia mulher), enfim de um universo em que a fantasia e a realidade se cruzam ao longo do livro. Há três irmãs muito infelizes, uma jornalista regressada de França, um macho garanhão, um doutor apaixonado, uma velha bruxa de cajado de pau de marmeleiro, que se movem numa aldeia alentejana chamada Rio do Anjo, que tal como a Aldeia da Luz, vai ser condenada a ser submersa pelas águas do rio. A Aldeia do Luto será o nome dado ao novo espaço, face à recusa passiva do povo à mudança. Com grande domínio da escrita, a história vai sendo descoberta pelo leitor e à medida que as suas personagens vão falando de si. Depois há aquele anjo que voa com a velha cansada até ao paraíso…

Kivi

segunda-feira, setembro 01, 2008


Eric Weiner – A Geografia da Felicidade

À primeira vista parece um livro lamechas sobre a busca da felicidade. Eric Weiner resolveu fazer uma viagem pelas diferentes sociedades e para tentar entender o que realmente torna uma sociedade feliz. Os países escolhidos foram a Holanda, a Suiça, o Butão, o Qatar, a Islândia, a Moldávia, a Tailândia, a Grã-Bretanha, a Índia e os EUA. Eric não visitou os países onde as necessidades básicas do cidadão não são satisfeitas porque aí obviamente que não há grande felicidade. Comprei este livro porque tive curiosidade sobre o que Eric Weiner tinha a dizer sobre a Grã-Bretanha.

O livro conquista qualquer pessoa que goste de literatura de viagens, especialmente porque os países escolhidos são tão diferentes uns dos outros. É como viajar sem sair de casa. Por outro lado, estamos a viajar dentro da mente de um jornalista americano com todas as implicações que isso acarreta, como a subjectividade e a dificuldade em livrar-se de estereótipos. Em muitos destes países Eric não passa tempo suficiente para fazer uma análise fidedigna. Notamos isso relativamente à Grã-bretanha. Apesar de todas estas limitações vale a pena ler o livro. Quando o terminei fiquei insatisfeita com o fim da “viagem”, gostaria que Eric fosse a mais locais interagir com as pessoas e confrontá-las com o seu modo de vida.

Em relação ao tema da “felicidade”, Eric faz um bom trabalho porque não se deixa cair no âmbito da “auto-ajuda” do género “aprendam com estes ou aqueles porque eles é que sabem”. Como jornalista que é, Eric tenta recorrer a fontes credíveis (universidades) para obter dados sobre a satisfação pessoal das populações. A interacção com pessoas que o possam elucidar mais sobre cada país também faz parte da pesquisa de Eric, apesar de em alguns países não seja fácil. Resumindo um pouco o que Eric andou a fazer:

Na Holanda, teve acesso à base de dados sobre felicidade da Universidade de Roterdão que interpretou com ajuda dos investigadores, descobrindo que no mundo a maioria das pessoas é feliz.
Na Suiça Eric andou nos melhores transportes públicos do mundo e conversou com pessoas que não se importam com a quantidade de regras a que estão sujeitos, como a de não poder utilizar o autoclismo depois das 24h.
No Butão Eric sentiu-se inebriado pela atmosfera montanhosa e tentou descobrir como é que um país tão pouco “civilizado” está num dos primeiros lugares do ranking da felicidade. Descobriu que no Butão é mais importante na política a medição do FIB (Felicidade Interna Bruta) do que o PIB.
O Qatar, um dos países mais ricos do mundo, sem impostos e com uma data de regalias (os habitantes são todos ricos), Eric descobriu que o país anda a tentar comprar uma identidade e uma cultura.
Na Islândia, Eric provou a especialidade Tubarão Podre e ia morrendo com a experiência. Eric adorou o espírito cultural e artístico dos islandeses e a capacidade de resistência à escuridão auxiliada pelo álcool.
Na Moldávia Eric descobriu que o melhor que o país tem é a fruta fresca.
Na Tailândia andam todos num estado de relaxamento e as preocupações são postas sempre em último lugar no ranking dos pensamentos. Os problemas são adiados e escondidos.
Na Grã-Bretanha Eric visita a cidade votada como a mais deprimente do país, Slough, e tentou descobrir os resultados deu um Reality Show em que ensinavam técnicas para que os habitantes de Slough fossem mais felizes.
Eric viveu vários anos na Índia devido à sua profissão. Neste livro Eric fala de como a espiritualidade contribui para a felicidade dos indianos e de como a imprevisivelmente atrai todos os anos pessoas de todo o mundo para um país com tanta pobreza.
Por fim, Eric volta para os EUA e tenta analisar como tem contribuído o poder do país para o bem-estar das pessoas.

Links:

Ranking da felicidade pela Universidade de Leicester
: Portugal não está muito bem classificado…

domingo, agosto 24, 2008



Mário Cláudio - Boa Noite Senhor Soares


Estreei-me com o Mário Cláudio e gostei da sua prosa escorreita. Gostei da narrativa do romance, da Lisboa tristonha, pálida e entediante dos anos 30 que M.C parece conhecer tão bem e do mundo afectivo das personagens que falam de si não falando. Há também a vida de família e a vida miserável e silenciosa da personagem feminina.
Conheci M.C na Figueira quando apresentou este livro no dia 3 de Julho no Casino da Figueira da Foz e aí apercebi-me numa conversa animada de um homem de comunicação simples e agradável, que nesta cidade tem leitores fiéis. Dizia então M.C que quis escrever uma história com princípio, meio e fim e de uma Lisboa que conheceu bem.
A história é contada por um rapaz que vem da província, de Escalos de Cima, concelho de Idanha-a-nova - António da Silva Felício para trabalhar como aprendiz de caixeiro num armazém da rua dos Douradores. No mesmo armazém trabalha o senhor Soares, que é tradutor. O senhor Soares é um homem sombrio, esquálido, reservado, sem interesses mundanos e que sobretudo é um poeta. Gradualmente a figura do senhor Soares transforma-se no principal foco de atenção do jovem António, pela sua vida enigmática e do qual saem poucas palavras para além das boas noites dadas aos rapazes do escritório no final da noite. E é esta personagem que vai atravessar a vida deste rapaz simples e dócil, numa química de admiração e de respeito e que já na sua velhice lhe dá nome ao neto - Bernardo. M.C revisita o heterónimo de Fernando Pessoa ou melhor o seu auto designado semi–heterónimo: “O meu semi- heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenho um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa e um constante devaneio. É um semi-heterónino porque não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.” É do Livro do Desassossego que saem outros nomes para as outras personagens e é com este convite que termino.

Kivi

terça-feira, agosto 19, 2008

O Enigma de Paris – Pablo De Santis

“Paris, 1889, Exposição Universal, os Doze Detectives, os investigadores mais famosos do mundo, reúnem-se”.

O “Enigma de Paris” é um livro para quem gosta de histórias de detectives sem as ferramentas CSI e com os preconceitos presentes da época, como por exemplo, a impossibilidade das mulheres entrarem no mundo da investigação e a associação de um eventual crime com uma parte do cérebro formatada para tal desde o nascimento. A história é contada por um aprendiz (Salvatrio, de origem argentina) que tem um papel fundamental na história, provando que o melhor detective é o que se mantém longe da loucura dada pelo orgulho e arrogância da profissão. Abundam os instrumentos da época como lupas, análise de pegadas e teorias filosóficas sobre o método. Os detectives aspiram ao poder dado pela resolução dos enigmas apenas com recurso ao romantismo da arte da investigação.

O cenário consiste na exposição internacional de Paris de 1889, onde foi apresentada pela primeira vez a torre Eiffel. A ideia é dar ao leitor um cenário confuso e sombrio onde o grupo dos “Doze Detectives” se esforça por manter a credibilidade. Tirando o cenário da exposição, as personagens são todas inventadas e como são muitas acabam por se confundir umas com as outras e serem um pouco inverosímeis e idiotas. Acho que Pablo De Santis gostaria de criar atmosfera à Corto Maltese (versão Detectives em Paris), mas em vez disso arranjou um molho de personagens que depois se viraram todas contra ele exigindo papéis mais interessantes.

O livro de Pablo de Santis não é muito entusiasmante para ler nas férias. O que se salva são as investigações em si e o percurso do aprendiz Salvatrio em busca da verdade. Também foi interessante reviver o ambiente sombrio da época e relembrar como a ciência evoluiu tanto desde aí.


terça-feira, agosto 05, 2008

Os livros que vou levar para férias

Férias sem livros não são férias.

É claro que as férias não são assim tão grandes e há outras coisas para fazer; como sempre não vou conseguir ler todos os livros que levo, mas pelo menos assim tenho escolha.

Amor, Sexo e Tragédia - Simon Goldhill

Porque é que os clássicos são importantes? De que forma é que a nossa civilização se baseia nas civilizações grega e romana, e em que aspectos é que é fundamentalmente diferente? Qual a importância da tradição judaico-cristã?

Recentemente durante uma conversa ouvi uma opinião que me perturbou: alguém disse que hoje a História já não é necessária; que como vivemos numa civilização tecnológica e democrática, não precisamos de História para nada. Eu acho que, muito pelo contrário, é importante compreender o passado para entender alguns dos problemas que enfrentamos hoje, ou a forma como as concepções morais evoluíram ao longo do tempo.

The Fall: The evidence for a Golden Age, 6,000 years of insanity, and the dawning of a new era - Steve Taylor (O Books)

Este livro foi-me recomendado por um professor de Pré-História, que é de opinião que os povos pré-históricos não eram assim tão bárbaros como nós pensamos, e que a civilização, por outro lado, embora nos tenha dado numerosos benefícios, também trouxe consigo flagelos e desigualdades que antes não existiam, tais como a escravatura (da qual só recentemente nos livrámos, e não em todo o mundo), a exploração das mulheres pelos homens e das pessoas sem posses pelas com posses, as religiões opressivas, os tabus em relação ao sexo, a noção de pecado, etc, etc, etc. Este autor pretende demonstrar que as sociedades pré-civilizacionais eram mais igualitárias, e encaravam o sexo, a menstruação, e outros aspectos da nossa biologia de forma mais natural. Parece-me interessantíssimo.

A Mente à Noite: porque e como sonhamos - Andrea Rock (Caleidoscópio)

Geralmente este livro está arrumado na psicologia, mas no outro dia vi-o na secção de "esoterismo" - sem dúvida porque fala de sonhos, e como toda a gente sabe, os sonhos são uma coisa assim a modos que esotérica.

O título original não deixa margem para dúvidas: "The Mind at Night: The New Science of How and Why We Dream" revela que se trata de um livro científico sobre o tema. O que mais me cativou foi que quando o folheei, dei com uma passagem sobre uma experiência em que era pedido a pessoas que nunca tinham jogado tetris que jogassem durante algum tempo e depois a maior parte delas referia ter sonhado com peças de tetris a cair. Como isso já me aconteceu (e não só com jogos de computador - pode acontecer com qualquer actividade à qual o cérebro tem necessidade de se adaptar) fiquei logo fascinada. Espero que seja interessante.


The Olympic Games: The first thousand years - M. I. Finley, H. W. Pleket (Dover Publications)

Enquanto não começam os jogos olímpicos, é sempre interessante saber como eram os jogos olímpicos da Antiguidade. Do que eu sei acho que era uma data de homens todos nus a correr e a jogar boxe. Não devo estar muito enganada.

Ah, e é ilustrado.

The End of Faith - Sam Harris (Free Press)

Sam Harris diz que começou a escrever este livro a 12 de Setembro de 2001. Acho que isso se nota no tom, que não é particularmente subtil. A ideia geral é que a religião em si é um problema para a humanidade, e que o fundamentalismo é só a forma mais extrema desse problema. As 3 grandes religiões monoteístas, em particular, cada uma com o seu monopólio da verdade, jamais poderão ser reconciliadas, funcionando como veículos de transmissão de ódios ancestrais e como obstáculos à paz, ao desenvolvimento e, pelos menos no caso dos países teocráticos, um obstáculo aos mais básicos direitos humanos.

Nos últimos tempos houve vários livros decididamente ateístas, uma vaga que já foi chamada de "novo ateísmo" (o Ian McEwan, numa entrevista ao The New Republic, disse que se passa com a expressão: novo porquê? Sempre houve ateus desde que existem religiões). Simplesmente houve uma vaga de livros bastante bons sobre o tema: A Desilusão de Deus - Richard Dawkins, Quebrar o Feitiço - Daniel C. Dennett, ou Deus não é Grande - Christopher Hitchens são os melhores exemplos, aos quais se junta este O Fim da Fé (também já está traduzido, mas como sempre a edição em português é mais cara, por isso compensa comprar o original).

O que é engraçado é que até agora (ainda só li um capítulo) parece mais um livro sobre neurociência, e não é por acaso. É que o Sam Harris está a fazer um doutoramento sobre as a neurologia das crenças, utilizando imagens de ressonância magnética.

Até agora estou a gostar, acho que vai valer a pena.


E é isto. Ultimamente estou numa fase de ler apenas não-ficção, como se pode ver. Provavelmente um dia destes passa-me.

Ou não.

Boas férias e boas leituras!

quinta-feira, julho 03, 2008

Biblioteca feminista básica

Na semana passada decorreu em Lisboa o terceiro Congresso Feminista português. Sendo que o primeiro foi em 1924 e o segundo em 1928. Há 80 anos portanto. Que este evento tenha passado quase completamente despercebido na imprensa nacional não surpreende. Parece que o feminismo ainda é uma palavra feia, com associações pejorativas, fruto de uma enorme ignorância sobre o tema. É incrível que numa época em que colhemos os benefícios da luta de inúmeras mulheres que desafiaram instituições, família e sociedade, para fazer valer os direitos de todos os seres humanos, não o saibamos reconhecer.
Para desmistificar e informar, aqui vão algumas sugestões para uma biblioteca básica do feminismo.


Introduções curtas



Feminism: a short introduction - Margaret Walters (Oxford University Press)

Estes livrinhos pequeninos costumam fornecer uma introdução breve e imparcial sobre os temas. Infelizmente é quase impossível encontrá-los em Portugal, o melhor é encomendar pela net.


Feminism - June Hannam (Longman)

Este pelo contrário, encontra-se à venda pelo menos na Livraria Leitura. É uma boa introdução histórica, referindo-se às 3 "vagas" mais importantes do feminismo (a do movimento sufragista, a dos anos 70 e a actual).

Tenho pena de não apresentar uma boa introdução ao feminismo em português, mas infelizmente não me lembro de nenhuma. Há um livrinho pequenino de uma francesa, Isabelle Alonso, chamado "Todos os homens são iguais... mesmo as mulheres" que introduz alguns dos temas importantes do feminismo, mas não sei se é uma boa introdução.


Livros essenciais

A Room of One's Own - Virginia Woolf

Já traduzido para português, mas vale a pena ler o original (como todos os livros da Virginia Woolf). Ideia geral: uma mulher, para escrever, precisa no mínimo de ter um quarto para si própria (privacidade) e dinheiro para comprar tinta e papel. No tempo de Woolf muito poucas mulheres podiam dispôr destes meios, ou de tempo para se dedicarem aos seus próprios interesses; nesse aspecto ela era uma privilegiada.


A Sujeição das Mulheres - John Stuart Mill (Almedina)

Brilhante defesa dos direitos das mulheres numa época em que o casamento pouco melhor era para a mulher do que uma escravatura sob outro nome. Stuart Mill argumenta que a sociedade teria imenso a ganhar se metade das pessoas não fosse impedida, à partida, de dar o seu contributo intelectual, político e social. Advoga o direito de voto para as mulheres, a possibilidade destas serem admitidas em carreiras profissionais que na altura lhes estavam vedadas, como a medicina e a advocacia, e alterações na lei do casamento que permitissem por exemplo, que uma mulher casada pudesse dispôr dos seus próprios bens.

Não resisto a aproveitar a oportunidade para recomendar também "Sobre a Liberdade", outro livro importantíssimo do mesmo autor.


O Mito da Beleza - Naomi Wolf (não me lembro qual é a editora portuguesa, mas sei que está traduzido)

Como os padrões de beleza são usados para controlar e desvalorizar as mulheres. Apesar de tudo o que as mulheres conseguiram até hoje (pelo menos na sociedade ocidental), mensagens constantes dos media e da publicidade tentam, desde cedo, incutir-nos a ideia de que os nossos corpos são imperfeitos, e que só comprando este ou aquele produto poderemos sentir-nos bem connosco próprias. Esta insegurança é a base de uma gigantesca indústria de produtos de beleza e emagrecimento.

Indústria essa que aliás, está a começar a explorar também o mercado masculino. Era bom que todos nós tomássemos consciência de um simples facto do marketing: uma pessoa satisfeita consigo própria não dá um grande consumidor. A publicidade visa especificamente criar inseguranças e necessidades onde elas antes não existiam.


Backlash - Susan Faludi (penso que está traduzido para português do Brasil)

O backlash, ou ricochete, é a resposta conservadora ao feminismo. Significa que sempre que são feitos alguns avanços, a direita mais conservadora tenta recuperar terreno e anular algumas dessas conquistas. Susan Faludi reporta-se aos anos 80, mas actualmente também acontecem situações semelhantes. nunca podemos achar que os nossos direitos conquistados estão seguros; pelo contrário, devemos manter-nos sempre alerta contra aqueles que nos querem retirar as nossas liberdades. Isto vale para os direitos das mulheres como vale para a democracia, a liberdade de imprensa, e muitos outros direitos arduamente conquistados.


O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir (Quetzal)

Eu sei que este é um dos livros mais marcantes do movimento feminista; no entanto confesso que ainda não o li, porque me custa um bocado ler em francês. Está esgotado há imenso tempo em Portugal, mas acabou de ser agora reeditado o primeiro volume e o segundo sairá ainda este ano, creio eu. Fiquei com a impressão de que a ideia geral é que a mulher é mais um ser construído do que natural (o que não é totalmente correcto do ponto de vista científico, mas é um bom ponto de partida para nos apercebermos de como a sociedade molda as pessoas segundo ideias pré-concebidas).


Livros sobre as mulheres


História das Mulheres no Ocidente, 5 volumes - dir. Georges Duby e Michelle Perrot (Afrontamento)

Não é um livro feminista, mas é uma conquista do feminismo que actualmente se escrevam livros sobre a História das mulheres, geralmente relegadas para segundo plano na História tradicional que se escrevia até ao séc. XX.

Para ser sincera só li o primeiro volume, sobre a Antiguidade, que é a época que acho mais interessante, mas suponho que os restantes volumes sejam de igual qualidade.


Mulher: Uma Geografia Íntima - Natalie Angier (Gradiva)

Uma viagem ao corpo da mulher. Do ponto de vista da biologia, é interessantíssimo. Mas não fala só sobre cromossomas e hormonas; fala também sobre questões mais relevantes para as nossas vidas, por exemplo porque é que todas as mulheres deveriam praticar exercício físico, incluindo musculação, em qualquer idade.

Estou morta que a Gradiva publique o último livro dela, The Canon: The beautiful basics of science, que me parece ser uma boa introdução à ciência para quem venha de outras áreas.


Women, Art, and Society - Whitney Chadwick

Uma História da arte no feminino. A Paula Rego também aparece.






Feminismo islâmico

Uma Mulher Rebelde - Ayaan Hirsi Ali (Presença)
(Infidel, no original)

Muito impressionante. Uma mulher que sofreu na pele a mutilação genital, um casamento forçado, conseguiu pedir asilo na Holanda, e actualmente é

perseguida por fundamentalistas islâmicos pelas suas ideias feministas e contra a opressão da religião e dos costumes tradicionalistas. Vale a pena conhecer a história de coragem desta mulher.


Persépolis - Marjane Satrapi (Jonathan Cape, London)

O filme é bom, o livro é uma delícia. Autobiografia em banda desenhada que retrata com humor a vida quotidiana sob a opressiva teocracia do Irão.








Esta é apenas uma pequena lista, muito pessoal. Mas é um ponto de partida para explorar, afinal, o que é que "estas gajas querem", sem preconceitos.

terça-feira, junho 24, 2008



Inês Pedrosa- A ETERNIDADE E O DESEJO
A protagonista de nome Clara é uma professora cega, que com o seu amigo Sebastião regressa à Bahia, onde em tempos perdeu o amor António e ficou cega. Portugal é um país velho, pejado de relações mesquinhas e intriguistas, que lhe lembram recorrentemente a sua condição de cega. António é também o padre António Vieira e 400 anos depois, Clara percorre os lugares por onde aquele passou, revivendo os seus escritos/ensinamentos/pensamentos e a história da escravatura e do colonialismo português. Clara, em monólogos nesse Brasil vai descrevendo a sua experiência de liberdade e a consciência da eternidade que é mais de tudo, o conhecimento. É na busca do amor, posição que Sebastião não compreende , que encontra Emanuel num misto de misticismo católico, deuses africanos e candomblé, muda a sua vida e abandona a ideia do regresso a Portugal. É o amor sem retorno - desejo e eternidade, que se respira em feliz inconsciência, sem medo de Deus ou de Deuses, sem ontem ou amanhã, indiferente à esperança e ao desespero. É um Brasil físico, do desejo, que liberta a dor comum, da miscigenação. É o amor fino de que fala Padre A.V:
O amor fino não busca causa nem fruto. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: o amor fino não há de ter porquê nem para quê. Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo: se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há-de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo; amo,ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido, quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, só esse é fino. Este livro aproxima-nos de Vieira, que foi um grande escritor, um orador, um pioneiro dos direitos humanos, um embaixador, um mediador, que mesmo mal compreendido e sem conseguir mudar os costumes, tinha a consciência da verdade, a eternidade e por isso não desistia. Apetece-me deixar aqui esta descrição de Vieira sobre o choro:
Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso: chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva. Inês Pedrosa escreve de novo e excelentemente sobre o amor e com muita sensibilidade.


Rio da Flores - Miguel Sousa Tavares

M.S.T está de parabéns, fez um exaustivo trabalho de pesquisa histórica sobre 30 anos da primeira metade do século XX e deixou-nos um romance que se lê com entusiasmo e que apesar das suas 608 páginas não nos deixa desviar a atenção. Questiono assim a critica insidiosa e a desvalorização feitas pelos seus detractores.
A ideia principal que percorre o livro é a liberdade perdida e é a história de dois irmãos com posturas ideológicas diferentes e que ao longo das suas vidas e dos acontecimentos históricos de uma Europa a rubro ( a ascensão de Hitler e a guerra civil de Espanha) mantêm as suas convicções sem desvios na sua maneira de estar pessoal, social e politica. O espaço é a quinta Valmont no Alentejo e a família de latifundiários - os Ribera Flores. O amor à terra é atravessado por diversas crises, quer pessoais quer da história politica. O país vive a desordem da 1ª Republica a que se segue a instauração do Estado Novo com a repressão da ditadura e um modo de vida mesquinho e atrasado e uma igreja que se socorre de Fátima e que canta nas suas novenas “Enquanto houver portugueses tu serás o meu amor”. Numa segunda fase o cenário passará a ser o Brasil com a viagem do filho liberal no dirigível Zepelim construído por um conde alemão.

quinta-feira, maio 08, 2008



A Conspiração Contra a América – Philip Roth

449 páginas lidas numa semana, porque é difícil parar de ler Philip Roth (pela preocupação com as personagens e porque se pararmos é complicado retomar a densidade da história). “A Conspiração Contra A América” relata uma realidade alternativa, sobre como seria a vida dos judeus nos EUA se Charles Lindbergh, um simpatizante do fascismo, vencesse Franklin Roosevelt nas eleições presidenciais de 1940. É caso para dizer que “se não aconteceu podia ter acontecido”, porque a capacidade inventiva de historiador de Roth é extraordinária. Seria fácil resvalar por um caminho mais fácil com uma imitação da situação dos judeus na Europa (não é preciso muita imaginação para voltar a escrever sobre as horríveis cenas a que os judeus se submeteram), mas não foi isso que Roth fez nem nada que se pareça. Roth criou uma situação perfeitamente verosímil em que os políticos agem como políticos, os americanos agem como americanos e as crianças agem como crianças. A história desenrola-se à volta da situação da família Roth, sob a perspectiva do assustadiço filho mais novo, Philip. É muito interessante a forma como lida com o primo Alvin, que entretanto resolve rebelar-se contra o governo de Lindbergh e combater contra Hitler pelo Canadá. Outras personagens muito importantes são o irmão Sandy, que leva uma “lavagem cerebral” pró-Lindbergh, o vizinho alheado Seldom, a traidora tia Evelyn e o jornalista anti-Lindbergh Walter Winchell. Passamos o livro muito preocupados com a família Roth, sempre à espera que o pior aconteça. Tememos que o pai perda as estribeiras e sofra por isso, que a mãe não repare no que está a acontecer aos seus filhos e que Sandy não acorde para a realidade dos factos. Obviamente que a maior preocupação é com a personagem Philip, que vive absolutamente confuso e assustado com tudo o que está a acontecer e sem conseguir encontrar o conforto nos adultos que o rodeiam.
“A Conspiração Contra a América” é assim uma história extraordinária contada por um dos melhores escritores da actualidade (para não dizer o melhor).

sábado, abril 26, 2008

Freakonomics – O Estranho Mundo da Economia -Steven Levitt e Stephen Dubner

Freakonomics trata-se de um livro muitíssimo interessante sobre alguns estudos sobre questões tão diversas como os nomes que estão na moda à batota que os jogadores de Sumo fazem sem ninguém dar por isso. Steven Levitt e Stephen Dubner consideram-se "mega"-alternativos nos estudos que fazem, procurando entender os incentivos e as escolhas que as pessoas fazem e determinar padrões escondidos nos mais variados exemplos. Acaba por ser assim um livro de filosofia, ao reflectir sobre os moldes de organização de determinados microambientes sociais. O livro cativa os leitores através de premissas engraçadas como a razão porque os traficantes de droga ainda não saíram de casa dos pais ou como o Klu Klux Klan perdeu credibilidade quando alguém o colocou no papel do arqui-inimigo do Super-Homem. Os estudos são muito interessantes desmistificando algumas crenças populares de causa-efeito através da estatística e tentando explicar as causas reais escondidas de alguns assuntos tão polémicos como a diminuição da criminalidade a partir da legalização do aborto. Imprescindível.