sexta-feira, outubro 21, 2011


F.SCOTT FITZGERALD

O Grande

GATSBY

Este clássico da literatura americano é considerado um dos cem melhores livros do sec. XX. Reli-o e apesar de inicialmente não me arrebatar, vai entranhando ao ponto de não parar a leitura. É uma novela, e é nesta qualidade que a senti, que retrata uma geração decadente e inebriada pelo sonho americano. Inicialmente não me arrebatou É uma história de excessos e a intriga resulta muito bem. Passa-se em Long Island em tempos de prosperidade americana (1920), do jazz, da proibição de álcool, da nostalgia da guerra, do início do crime organizado, do materialismo e da amoralidade. Gatsby é um milionário conhecido pelas festas animadas que dava na sua mansão, cuja história de vida está rodeada de mistério. A história é narrada pelo seu amigo Nick Carraway, um jovem comerciante de Midwest. Ele é a consciência moral e o bom senso da classe média. Daisy, uma aristocrata com dinheiro casada com Tom Buchanan, é uma antiga namorada de Gatsby e este vai fazer tudo para reencontrá-la. O jogo da vida em que vale a ociosidade e o cinismo. Nada detêm os vários personagens ociosos e cínicos que jogam a vida para escaparem à tristeza e ao tédio e Gatby vai pagar caro o erro cometido. Como traços principais da obra distinguem-se o egoísmo romântico e a importância de se viver com intensidade e com risco, sendo também um retrato da época e da própria vida do F. Scott Fitzgerald.

K

segunda-feira, outubro 10, 2011

James Joyce

Gente de Dublin

O livro que pertence à série dos autores não premiados pelo Nobel, iniciativa do jornal Público, tem dez das quinzes histórias da publicação inicial do “Dubliners” o que é uma pena, pois a beleza das palavras, a simplicidade, a ingenuidade das suas personagens fazem da sua leitura um grande prazer. E depois de ter visitado recentemente Dublin sinto-me na obrigação de dizer da obrigatoriedade de conhecer previamente os seus escritores, sendo com certeza esta reflexão válida para qualquer cidade, país ou território.

O que pontuam estas histórias escritas de forma realista e que narram a vida mais que normal dos dublinenses é a impotência das suas personagens e a inevitabilidade para contrariar as suas condições de vida, algumas vezes histórias tristes, outras comoventes em que o final acaba quase como começou, sendo certo que está afastado qualquer conteúdo moral. É uma escrita realista mas depurada e neutra afastando o leitor de sentimentalismos. Mesmo parecendo histórias politica e ideologicamente isentas, Joyce terá tido enormes dificuldades em as publicar atendendo às características obscurantistas da então sociedade. Gente de Dublin retrata a sociedade irlandesa do princípio do séc. XX, marcada pela pobreza e pelo conservadorismo. São histórias sobre a vida dura das pessoas e famílias, sobre as suas alegrias e a tristezas, as suas dores, o álcool, a hospitalidade dos irlandeses e ainda os padrões opressivos da cultura e da religião representa uma parte importante desse conservadorismo, ditando comportamentos, sendo por tal clara a sua importância e as clivagens subliminares existentes com a Inglaterra protestante percebendo-se da importância que a igreja católica tem na Irlanda, designada pelo “continente”. A dualidade de sentimentos está presente, já que apesar do amor e o sentido de coesão pela ilha há vontade de lá sair e parece uma fatalidade o desígnio de comparação com o Reino Unido.

K

segunda-feira, setembro 05, 2011


Cândido

Voltaire

Cândido ou o Optimismo, é um clássico da literatura publicado em 1759 por Voltaire e que deve ser lida à luz do espírito do iluminismo da época. É um livro muito irónico e é sempre em tom satírico, que são narradas as aventuras de um jovem simples, de raciocínio justo, uma espécie de D. Quixote, que se vai desiludindo nas aventuras que vai passando por todo o mundo, incluindo Portugal onde passa pela Inquisição e o utópico Eldourado na Américado Sul, o único lugar onde há bondade e onde a riqueza não tem qualquer importância. É nestas peripécias fantásticas por quais passa que se confronta com sucessíveis desgraças. Muitas das personagens passam pelas mais diversas torturas físicas e psíquicas e o mundo retratado é cruel e materialista. A sua amada Cunegundes e os filósofos Pangloss e Martin constituem as principais personagens, também elas desafortunadas pelas experiências terríveis por que passam. Também Cunegudes, o expoente de beleza feminina vem a ficar feia e disforme, desencantando o ingénuo Cândido. Só Cândido poderia acreditar nos ensinamentos de Pagloss de que vivíamos no melhor dos mundos possíveis.

Apesar de se poder ler sobre o lado da aventura, é um livro filosófico. Faz uma reflexão acerca do mundo, das concepções optimistas sobre o homem, da harmonia e da ordem no mundo, de que tudo corre sempre às mil maravilhas porque tudo está encadeado e acabará bem, já que há sempre uma causa para determinado efeito. É demolidor do cristianismo e dos seus representantes – a história está pejada de jesuítas, franciscanos e demais ordens religiosas. Voltaire conclui a obra com Cândido, se não rejeitando o optimismo, substituindo o mantra de Pangloss, “ tudo vai melhor no melhor dos mundos possíveis”, por um final curioso e enigmático “devemos cultivar o nosso jardim”.

Gostei muito de o ler, é muito divertido, é actual e percebi a referência paglossiana que o actual ministro das finanças fez a Sócrates e ao seu governo – tudo ia melhor no melhor dos mundos possíveis.

Kivi

sábado, agosto 20, 2011




A Ilha de Sukkan

David Vann

O apelo de livros convenientes para o Verão levaram-me a este livro, entusiasmando-me mais a incursão a fazer pelo Alasca do que o retrato psicológico da principal personagem que vai ficar isolado numa ilha inóspita com o filho de 13 anos, ou mesmo o facto de ter sido distinguido em França pelo melhor filme estrangeiro. As personagens libertas da pressão do mundo civilizado, vão testar os seus limites, não pelas necessidades de sobrevivência material que têm de suprir, mas pelos terrenos de intimidade a que ficam obrigadas, provocando uma ambiência claustrofóbica. A história vai transformando-se num pesadelo e acaba em tragédia. O pai é uma personagem egoisticamente irritante, nada está bem com ele, é pueril, chora à noite ao lado do filho lamentando-se dos erros cometidos, pelo que é difícil nos desligar-mos da sorte desta criança. Não encontrei grande significado na história, apesar de ter sabido posteriormente que foi inspirada numa tragédia pessoal do pai do autor. O que gostei mais foi a forma como foi trabalhada a natureza, mas em conclusão não ganhei muito com este livro.

terça-feira, agosto 16, 2011




LIVRO

JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Livro foi para mim uma descoberta, é a reafirmação do talento da escrita de José Luís Peixoto. Surpreendeu-me profundamente a estrutura narrativa do romance, as histórias contadas, a caracterização terna e crua das personagens, a evolução das mesmas num período que vai dos anos 50 aos dias de hoje em que a paisagem rural dá lugar ao viver urbano com as aprendizagens vividas e sofridas no país de emigração. É um romance sobre a emigração portuguesa nos anos 60, com descrições minuciosas dos bairros de lata de lata de Champigny e Saint Denis e também da miséria do país rural que foi deixado mas jamais esquecido. Livro, título da obra, o livro que Ilídio dá à sua namorada Adelaide e o nome que esta dará mais tarde, casada em Paris com o intelectual comunista Constantino, ao filho que nasceu de um fortuito encontro com Ilídio, numa sua vinda à terra sem o marido. Adelaide, Ilídio, Cosme, Galopim, a velha Lubélia, Josué são personagens tão bem elaboradas que nos comovem por as sentirmos tão próximas e é por isso se lê de uma forma torrencial. Livro é um tributo aos homens e mulheres que emigraram, à pobreza das suas condições de vida, aos seus desejos, aos seus sonhos, aos seus encontros e desencontros, as transformações que trouxeram às aldeias. Ilustrando as mudanças sociais e políticas operadas na realidade portuguesa, é no final que percebemos quem é o narrador, pois só ele como descendente de uma geração de analfabetos ou quase analfabetos poderia escrever e chamar-se mesmo Livro. Livro é a vida de toda esta gente que povoa o livro e também o nome do filho de Adelaide e de Elídio. E como começa o romance “A mãe pousou o livro nas mãos do filho”, também assim poderá ser terminado.

Kivi


domingo, julho 24, 2011





Werther

J. W. Goethe


Werther ou os Sofrimentos do jovem Werther é uma obra-prima da literatura mundial e o expoente do movimento do romantismo na viragem do sec. XVIII para o sec. XIX, em que o universo é emergir nas mais profundas dimensões do imaginário, espelhadas pela elegante atracção pelo abismo face à intangibilidade da felicidade. Toda a visão do mundo é centrada no eu, tudo se move à volta da emoção, sendo os sentimentos mais comuns os relacionados com o êxtase e a pureza da natureza, com a tristeza, o pessimismo e a desilusão.
O livro é parcialmente autobiográfico e é epistolar. Werther narra a sua história de paixão com a jovem Carlota através de cartas dirigidas a um amigo. Carlota está comprometida e casa-se com Albert, homem cujo qual Werther adquiriu grande amizade e admiração. O convívio diário com o casal é um martírio e a paixão impossível passará a ser o centro da vida do jovem Werther que sabe que nunca a poderá ter para si. A ideia de morte como redenção constitui a pacificação dos exacerbados sentimentos de Werther e depois de um célebre beijo entre os dois e ela pedindo-lhe para que não a procure mais, ele prepara as pistolas de Albert e religiosamente mata-se. O livro terá influenciado uma onda de suicídios ocorridos na Europa.
É um clássico do romantismo que vale a pena ler, é agradável e prende a atenção até ao final.

Kivi

quinta-feira, junho 23, 2011


Richard Zimler

O último Cabalista de Lisboa

Para se conhecer o destino dos judeus portugueses à mão da Inquisição em 1506 – o massacre de Lisboa e alguns aspectos da Cabala (a filosofia mística que a partir da Provença se propagou pela diáspora judaica na Península Ibérica), este livro surge com especial relevância para nos familiarizar com esses acontecimentos terríveis que ocorreram no Rossio e que foram responsáveis pela matança de dois mil cristãos-novos na semana da Páscoa. Recupera os manuscritos históricos escondidos durante séculos com a expulsão dos judeus sefarditas e no caso concreto encontrados numa cave em Istambul, à data Constantinopla, refúgio dos judeus sefarditas acolhidos pelo sultão turco Bejadet II, que cumpriam uma ordem de expulsão decretada em primeiro lugar pelos reis católicos de Espanha e mais tarde pelo rei D. Manuel de Portugal.

A acção decorre em 1506 entre os judeus forçados, as principais personagens pertencem a uma família de cristãos-novos residente em Alfama, cujo patriarca, Abraão Zarco, é um iluminador e membro da célebre escola cabalística de Lisboa.

Apesar do livro ser mais que uma tradução, é fiel historicamente ao conteúdo dos manuscritos hebraicos deixados pelo judeu secreto Berequias – último cabalista em Lisboa, obrigado também à conversão da fé católica. Os escritos foram organizados e traduzidos por Zimmler e sua narrativa e linguagem coloquial mantém-se contemporânea, por isso são textos que para além da sua verdade histórica, poderão ser lidos com o agrado de uma boa ficção. Recomendo.

Kivi

sábado, maio 21, 2011







J. Rentes de Carvalho

Tempo Contado

Com os Holandeses


Foi por um acaso que me chegou às mãos este autor com o livro “ Com os Holandeses”. O prazer da sua leitura fez-me chegar ao seu penúltimo livro editado em Portugal - “Tempo Contado”. Rentes Carvalho parece ser pouco conhecido em Portugal, apesar de ter uma grande obra publicada na Holanda. Transmontano, de Mogadouro, passou a viver em Amesterdão desde 1956, onde foi docente de literatura portuguesa e se dedicou à escrita e lhe é francamente reconhecido o mérito literário. As suas raízes lusas e transmontanas atravessam o seu diário “ Tempo contado”. Mas se as raízes da sua existência e sensibilidade estão na aldeia, é na cidade de Amesterdão que se sente viver plenamente e é assim que a Holanda aparece como o seu país de reconhecimento e de adopção. Mas escrever não é só contar o essencial do seu dia a dia, é também o ajuste de contas de sentimentos com o passado que foi empurrado para o fundo da memória.
A sua leitura torna-se um vício, entregando-nos ao constante ruminar dos seus pensamentos, quer divague sobre a velhice, sobre as idiossincrasias holandesas, sobre a hipocrisia das obrigações literárias de que tão pouco gosta, do atraso de Portugal mas da graça e da pureza das relações quando vem de visita regular à aldeia.
“ Com os holandeses” desmonta o tão admirado sentido da tolerância do povo holandês, descrevendo o calvinismo intelectual com a falta de franqueza nas relações, que obriga este povo à uniformidade de costumes, à obrigação de adopção dos mesmos códigos para não correr o risco de ser excluído no relacionamento social. Voltaire terá sintetizado os Países Baixos venenosamente como”Canards, canaux et canailhes” Rentes de Carvalho é demolidor sobre os costumes, as manhas, os vícios, a ganância, a obsessão pela norma, a rudeza no falar e nos modos dos holandeses. Predominando o egoísmo, o que parece liberdade e respeito pelo outro não é mais que indiferença A modéstia nos hábitos, o medo de sobressair contrasta com a riqueza da cidade. O sistema associativo está de tal forma alicerçado - as associações ocupam-se de tudo (do religioso, ao politico, à educação, aos jardins, etc.), que as iniciativas individuais são vistas com medo e estorvo.
O que vale é que os holandeses não se aborreceram com estas críticas.

Kivi

terça-feira, janeiro 11, 2011






O RETRATO DE DORIAN GRAY
Oscar Wilde


Esta obra de forte cariz estético desafia a moral da época – uma Inglaterra Vitoriana, tendo Óscar Wilde explorado teatralmente os limites e se colocado como o criador do movimento - esteticismo ou dandaísmo. Mas o mais sublime no romance é o debate de ideias e de atitudes, através da experimentação do diálogo dialéctico entre as personagens num cenário condimentado pela intriga e pelo crime. É ainda um constante elogio à arte, á pintura, ao teatro e à música.
Conta a história de Dorian Gray, um jovem Adónis que serve de modelo ao pintor Basil Hallward e por quem este se apaixona e da sua relação com Lord Henry, um aristocrata cínico e hedonista que seduz Dorian para a sua visão do mundo. Priorizando a arte e a juventude como valores essenciais, tudo é permitido em nome da beleza e do hedonismo dos sentidos, não havendo lugar para doutrinas úteis, morais e realistas. Mas como beleza, que é uma forma de génio é efémera, Dorian vai dar a sua alma ao diabo. Sendo um romance de época, deliciei-me em especial com a forma adorável como as três personagens masculinas se tratam, só mesmo sendo britânicos!

Kivi

segunda-feira, setembro 20, 2010


A Viagem do Elefante
José Saramago


Baseada num facto histórico, cujos pormenores estavam pouco documentados, Saramago criou a história da viagem do elefante, oferecido pelo rei D. João III em casamento ao seu primo arquiduque da Áustria Maximiliano II. O elefante, a que chamou Salomão, viajou de Lisboa a Valladolid e já acompanhado pelo séquito real seguiu para a Áustria. Escrito em condições muito difíceis, este romance representou para Saramago a metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas" “E o que é que nos espera? A morte, simplesmente. Poderia parecer gratuita, sem sentido, a descrição, que não é exactamente uma descrição, porque é a invenção de uma viagem, mas se a olharmos deste ponto de vista, como uma metáfora, da vida em geral mas em particular da vida humana, creio que o livro funciona", referiu. Por isso a sua epígrafe é “sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”. È um romance que mistura realidade com ficção e em que o Nobel no apogeu da sua grandeza literária traz com ele a graça, a inteligência e a ironia da escrita. Achei esta obra primorosa.
Kivi

terça-feira, agosto 03, 2010


VIRGÍLIO FERREIRA

Aparição

O romance é narrado pela personagem principal, Alberto Soares, que numa primeira linha narrativo temporal, encontra-se velho em um antigo casarão e revive suas memórias. Nessas lembranças, acompanhamos uma outra linha temporal em que a personagem, agora mais jovem, recém-chegado a cidade de Évora, na qualidade de professor, para dar aulas no Liceu da cidade vem a conviver com uma família burguesa.
“Aparição” é um romance autobiográfico, de inspiração existencialista, em que o homem busca a identidade de si próprio. É pois um romance reflexivo, sobre as contradições da vida humana, sobre a individualidade e a responsabilidade da existência e a busca da razão da vida na sua ligação com a morte. Alberto Soares apresenta-se como um ser em conflito, fragmentado, alguém que procura encontrar um percurso de vida face a uma determinada problemática. Alberto confere a si próprio uma faceta messiânica, detentora de uma Verdade que tentará levar aos outros, e que, por incompreensão e deturpação, vai originar o seu isolamento e a sua rejeição. ““Não procures a noite por não suportares o dia; leva para o sol a tua aparição e serás um homem” O seu percurso é marcado por uma série de encontros e desencontros consigo próprio e com os outros e também pela tragédia da morte. O termo "aparição" significa exactamente a revelação instantânea de si a si próprio. Évora representa para ele a materialização do seu conflito interior e o drama de existir. Inicia as interrogações existenciais e sem razões válidas para justificar o seu afastamento de Deus, começa a construir a sua existência a partir de si próprio - ele será o seu deus;
E da parte final destaco: “ O campo arde vastamente, como uma destruição universal…A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que devia arder? Aacso será possível construir uma cidade como a imagino, a Cidade do Homem? …Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche – o ciclo, a viagem, mais perfeita.”

sábado, junho 05, 2010


a máquina de fazer espanhóis
valter hugo mãe

Foram duas entrevistas ouvidas na rádio em momentos diferentes, que me levaram a ler este livro, já que alguma curiosidade mantinha pelo autor que José Saramago tanto tem elogiado. É um jovem autor que com certeza tem marcado a diferença pela criatividade e pela linguagem que tão bem aproxima o leitor. O livro é uma homenagem ao pai que morreu antes de ter chegado à terceira idade e aspira a dar conhecimento de um passado político e social vivenciado por aquele, mas em parte por si desconhecido. A personagem principal é o Sr. Silva, apelido tão portuguesmente repetido, um octogenário que vê a sua vida mudar repentinamente quando colocado no lar “A Feliz Idade”. É a luta de um homem que quer manter a sua identidade num local onde lhe é roubada a alma, apesar desse local surgir como confortavelmente paternalista. Ele perde a mulher, a sua Laura constantemente evocada com amor, como um quotidiano de rotinas e de conformidades de um barbeiro, que mais não deseja que ser um homem de família. É uma evocação de passados num país vivido na ditadura, de mesquinhez e inveja. É um homem que no seu final faz contas à vida, e que apesar da revolta sentida com a nova realidade vem a encontrar naquele resto de solidão a amizade junto de iguais. O romance é atravessado pela ironia dos diálogos com os outros idosos, mas apesar de alguns elementos de alegria, a situação do Sr. Silva é mesmo trágica, como a de todos aqueles que chegam a este ponto sem retorno. O romance está muito bem estruturado, mas gostaria que o autor recomeçasse a escrever com maiúsculas. Afinal porque as aboliu? Não vale a pena começar uma frase com minúsculas.

Kivi

domingo, fevereiro 28, 2010

BRIAN WARD -PERKINS

A QUEDA DE
ROMA E O FIM DA CIVILIZAÇÃO

Trata-se de um livro que responde à pergunta clássica: Porque caiu o Império Romano? O autor é um arqueólogo inglês que através de testemunhos, em especial arqueológicos, vem comprovar-nos o retrocesso civilizacional do mundo ocidental ocorrido no século V com os invasores vindo do norte, da Alemanha e das estepes, que os romanos chamavam simplesmente de «bárbaros». Coloca-se numa atitude crítica relativamente à comunidade de historiadores, pela forma confortável como consideram o fim do mundo antigo. Assim a leitura dominante defendida é de que as invasões bárbaras são amortecidas e suavizadas, numa transformação da sociedade contínua e positiva e em que os invasores germânicos são pacificamente acomodados nas províncias romanas. Contrariamente, na sua opinião, o século V assistiu a uma profunda crise militar e politica, causada pela violenta e dolorosa tomada do poder pelos invasores bárbaros. Nove décimos da Europa regrediram para mil anos para o princípio da Idade do Ferro e levaram mil anos a recuperar, recompondo-se só Renascimento. Delonga-se na sofisticação do mundo romano, dos níveis de conforto atingidos, de uma elite de sabedoria, dos monumentos sofisticados, da riqueza criada e do acesso de muita gente aos bens e à cultura, aquisições que deixaram de ser vistos posteriormente durante muitos séculos. Considerando que os testemunhos escritos disponíveis são insignificantes, o autor serve-se dos objectos escavados para reconstituir a produção e a distribuição, a complexidade económico que distingue uma civilização de uma não civilização. Critica o movimento actual da comunidade de historiadores que se afastam da história económica por ter deixado de estar na moda, substituindo-a pela história da religião. Referindo-se à universidade de Oxford, pontua que os estudos clássicos da cultura greco-romana perderam o seu estatuto privilegiado e que os séculos pós romanos deixaram de ser a «idade das trevas», que se seguiu à extinção de uma grande civilização.” Na verdade, no mundo moderno pós-colonial moderno, o próprio conceito de «civilização» seja ela antiga ou moderna, é agora pouco confortável, porque é visto como aviltante para as sociedade que são excluídas do rótulo. Hoje em dia, em vez de «civilizações», aplicamos universalmente a palavra neutra «culturas»; todas as culturas são iguais e não há culturas mais iguais que outras.”

Kivi

segunda-feira, outubro 05, 2009

Orhan Pamuk

Istambul - Memórias de uma cidade

Foi o interesse de conhecer esta cidade e o imaginário do seu exotismo que me levou à leitura do livro. Mas não é de verdade um livro de viagens , antes de memórias de uma cidade e das percepções que dela ficaram ao longo do crescimento do seu autor. Pamuk remete-nos à nostalgia de uma cidade que foi cruzamento de civilizações e do império otomano perdido com a fundação da república turca em 1919. Vai-nos dando conta da decadência, da descaracterização e do empobrecimento cultural de Istambul, através do olhar sobre a sua infância solitária, sobre o passado familiar, revisitando as imagens e gravuras que ficaram do passado e nos relatos de poetas e escritores solitários istambulenses e europeus (ex.Flaubert). Não são só as marcas do exotismo das casas dos paxás, dos haréns e a transformação da paisagem da cidade e do movimento e vida do Bósforo, mas em especial a reversão da paisagem interior, como o emergente sentimento de tristeza e melancolia entranhado nos seus cidadãos, o designado húzún. O húzúnpassou a ser na literatura a causa escolhida consciente e orgulhosa do insucesso, do fracasso, da indecisão e da pobreza dos seus citadinos, apesar de proporcionar a união e o sentido de comunidade. A transformação de uma cidade que representava outrora a riqueza do Médio Oriente num lugar empobrecido e esgotado na sequência as guerras entre o Ocidente e com a Rússia, fez dos istambulenses uma multidão introvertida e nacionalista e suspeita em relação ao exterior. Esta transformação marca inevitavelmente o autor, cuja introversão o remetem inicialmente para o gosto da pintura -sempre paisagens do Bósforo e só mais tarde para a escrita. A título de curiosidade, Istambul da sua infância tinha um milhão de muçulmanos e não os dez milhões de hoje.

Sem estar em causa a escrita e o interesse pela forma singular como fala da cidade e como ela determinou o seu destino inevitável, achei o livro maçudo.

Kivi

sábado, agosto 22, 2009


José Eduardo
Agua Lusa
BARROCO TROPICAL



Agua Lusa entusiasma-nos com as suas histórias de personagens poéticas e absurdas, numa escrita de realismo fantástico. Projectando o romance em 2020 na cidade de Luanda, faz uma viagem pelos infernos numa cidade super populosa e num país em que o petróleo já se esgotou. É o caos e o absurdo qualificado na Termiteira - o prédio em que os elevadores já não funcionam e em que habitam ricos e pobres, com a diferença de que os mais pobres, os miseráveis e os estropiados vão descendo nos andares até chegarem à cave, onde vivem como ratos, meninas - cão, feiticeiras, mendigos, catorzinhas, etc. Angola é governada por uma Presidente e um sistema corrupto impõe-se uma teia de servidores e de informadores na busca de favores e de poder.
A principal personagem, Bartolomeu Falcato é escritor e vive no 47º andar da Termiteira a sua amante- Kianda é uma cantora com carreira internacional. São ambos os narradores do romance. Bartolomeu quer desvendar um mistério –uma mulher que caiu do céu, mas esta intenção ocasiona-lhe sérios riscos erevelando-nos o abismo e o absurdo. É uma história sobre o medo e o poder, que não pode deixar de estar associada ao mau sentido de crescimento de Angola. Esse medo de falar e de ter outra opinião, está bem patenteada no Centro de Saúde Mental Tata Ambroise, em que os politicamente alegados doentes psiquiátricos estão em corredores labirínticos amarrados a motores e outras peças enferrujadas de carros desmantelados e obrigados a “tratarem-se” com chá com penas enfeitiçadas, que conduzem à hipnose e a debitar a informação pretendida. Ele como a sua avó, também acredita em anjos e tem um talento especial para a felicidade. Agua Lusa terá revelado “ Sou uma das pessoas mais felizes que já tive oportunidade de conhecer”. É bom sentir este optimismo e confiança, mas parece-me difícil compatibilizá-la com a realidade que faz sentir da cidade de Angola.
Agua Lusa, tanto no livro como na apresentação do mesmo que fez no mês de Junho no Casino da Figueira, diz, que como escritor ter sido colocado entre Coetzee e Garcia Márquez,, mas o barroco vai buscá-lo seguramente ao segundo.
O que ficou do livro foi o retrato de Luanda, o absurdo da descida aos infernos da Termiteira e do Centro Tata Ambroise e a grande capacidade do escritor em contar com poesia estas histórias fantásticas de mestiçagem.

Kivi

segunda-feira, agosto 17, 2009

Comprar livros no Reino Unido

Quando vim viver para o Reino Unido esperei encontrar um bocadinho de Londres em todas as terras, com as suas livrarias tão especiais que vão desde o franchising à pequenina e velhinha loja de livros improváveis e interessantes. A verdade é que Londres é Londres, e o resto é conversa (com a excepção da mítica capital dos livros Hay-on-Wye). Lojinhas de livros não há em lado nenhum e as que haviam foram comidas pelas multinacionais Borders e Waterstones. É sempre possível encontrar uns livros em segunda mão em algumas lojas de caridade e nas “feiras da Ladra”, mas sem a mesma dignidade de uma livraria com um dono orgulhoso que tenha dedicado a vida à profissão. Também nos hipermercados é possível encontrar as últimas novidades. Não é que não me não goste da Borders e da Waterstones, mas na falta de concorrência tira a piada toda que é ter acesso a todo o tipo de lojas dedicadas à literatura que se esperaria de um país em que todos os autores são traduzidos para a língua natal. A Borders tem um formato parecido com o da FNAC mas sem tanta variedade (e não tem hardware nem equipamentos de som e fotografia) e a Waterstones é mais dedicada às últimas novidades e à literatura infantil. Tanto uma como a outra tentam disfarçar o facto de serem franchisings e fazem de conta que os funcionários são especialistas em livros para que o cliente sinta que vale a pena comprar na loja e não na Internet. Temos como exemplo o acesso às opiniões escritas à mão dos funcionários. Na perspectiva do cliente estas tentativas são agradáveis, mas acabam por ser uma ilusão, já que a única alternativa existente é a maior livraria de todas, a Amazon.uk, que também ajudou à extinção das livrarias pequenas pela facilidade de utilização e pelos preços baixos, mas que torna a compra de um livro um acto privado sem interacção social e contacto físico com loja/livros.

A Saga Twilight de Stephenie Meyer - um caso de sucesso de vampiros civilizados que não dormem em caixões

Sim, devorei a saga twilight, que é constituída por quatro livros: “Twilight” (“Crepúsculo”), “New moon” (“Lua nova”), “Eclipse” e “Breaking down” (“Amanhecer”). Nas versões de capa dura isto dá 544+608+640+768 páginas!
Porque é que esta saga teve tanto sucesso?
Primeiro tem os ingredientes certos:
- vampiros (pela sugestão que vai acontecer alguma coisa de excitante);
- adolescente infeliz e anti-social apaixonada por um amor teoricamente impossível (alguns fãs equiparam a saga a “Romeu e Julieta”);
- vampiro jeitoso e personificação do “namorado que todas queriam ter”;
- vampiros maus que não descansam enquanto não matarem a heroína indefesa;
- lobisomens feios que não gostam de vampiros mas que gostam muito de quem os vampiros gostam;
- tipo de escrita viciante (faz lembrar a saga Harry Potter).

O número de páginas dedicadas à acção e confronto entre vampiros é muito reduzido em toda a saga. O mais característico da escrita de Stephenie Meyer é a insegurança das personagens do tipo “será que o vou ver hoje?” e “o que será que ele está a pensar?”
Porque é que me dei ao trabalho de ler esta saga? A saga é de leitura muito fácil especialmente para quem quer ler em inglês. O vocabulário é do mais básico que há, ao contrário do Harry Potter que é bastante mais descritivo e elaborado. Acaba por ser a leitura ideal quando não temos capacidade para ler nada de complicado, sendo absorvente o suficiente para nos fazer viajar para outro mundo. Serve muito bem a função de livro para ler no aeroporto, na praia ou quando ao fim do dia de trabalho estamos tão cansados que não conseguimos ler nada de complicado. No fundo pode dizer-se que sabe bem e é altamente viciante. A escrita é muito honesta e a história é muito simples (mas não previsível). A personagem principal Bella Swan é uma sofredora nata em todos os sentidos e durante 4 livros acompanhamos a sua evolução de forma muito íntima sem às vezes concordarmos com ela (tememos pelas suas decisões). O vampiro principal (Edward) tem a capacidade de ouvir os pensamentos de toda a gente à excepção de Bella Swan, e sendo muito cauteloso temos dificuldade em compreendê-lo e confiar nele (“too good to be true”). Stephenie Meyer tentou combater esse lapso começando a escrever a versão “Twilight” do ponto de vista do vampiro Edward. Porém, o rascunho foi publicado na Internet sem a sua autorização levando a autora a desistir do projecto para infelicidade dos fãs (“Midnight Sun” partial draft é agora disponibilizado no site oficial da autora). O rascunho foi altamente criticado porque os fãs não se tinham dado conta da obsessão do vampiro por Bella.
O primeiro livro é o mais interessante porque é a descoberta mútua das personagens principais. Os seguintes acabam por ser continuações com a introdução de novos elementos (como os lobisomens). O último livro “Breaking Down” foi uma decepção para os fãs de Meyer, que ao apropriarem-se das personagens não gostaram das decisões que estas tomaram e não aceitaram a liberdade da escritora de enveredar por outros caminhos. O livro foi tão atacado e a escritora tão desacreditada numa escala aparentemente ridícula para quem ambiciona apenas escrever uma novela de vampiros sem funções sociais. Foi acusada de incitar a pedofilia e as posições anti-aborto! Confesso que o último livro me entediou um bocado pela falta de ritmo e por haver 300 páginas sem qualquer acção. O rumo que a autora escolheu para o último livro é perfeitamente aceitável para o género novelesco mas os fãs não a perdoaram, querendo apenas mais uma história dos perigos inerentes a uma relação humano-vampiro. Concordo que o último livro poderia ser mais interessante, mas se formos a pensar nisso, toda a saga poderia ser mais interessante se tivesse outra autora, outras personagens e outro argumento, como todos os livros do mundo!! Stephenie Meyer não quis fazer do 4º livro mais do mesmo e apeteceu-lhe jogar com as possibilidades. É interessante ver como nesta saga os fãs tentaram manipular a autora ao máximo e como ficaram tão desiludidos com Bella Swan (que queriam que fosse previsível do princípio ao fim).
Recomendo a saga para aquelas alturas em temos a necessidade de ler alguma coisa light e viciante, e que saibamos que não teremos aquele sentimento incomodativo de culpa por perder umas tantas horas com literatura de “passar tempo”.

domingo, agosto 16, 2009


Diego e Frida

J.M.G LeClésio


Foi sem grande entusiasmo que me esforcei para ler este livro, fazendo-o num exercício de disciplina e de alguma obrigação já que me tinha sido emprestado. É que em boa verdade já conhecia as suas histórias de vida ou julgava conhecer. Mas valeu a leitura.
O que me ficou deste romance biográfico, foi o amor recíproco e incondicional deste casal, mesmo quando atravessado de tantos reveses e de separações físicas. Assume-se ainda o amor pelos índios, pela civilização pré – espânica, plasmado numa história de resistência de ambos os artistas contra a globalização e mesmo contra os USA. Clésio identifica-se com a vida dos dois pintores, já que a sua humilde vida literária tem sido dedicada à expressão da luta dos povos oprimidos. Em Frida é a procura integral física e mental da integridade dos oprimidos, da sede da verdade e da libertação da alienação do povo. O compromisso político de Frida e de Diego estão presentes ao longo da vida , apesar das grandes contradições e das posições polémicas de Diego (recorde-se que trabalhou e admirou o industrial de Detroit – Henry Ford). Não renegou essa admiração por esse império industrial e descrevia as oficinas como uma sinfonia para os seus ouvidos.É em Tehuantepec que Diego foi buscar as imagens fortes, as paisagens do éden, as mulheres de cabeleiras cor de ébano. Frida vai seguir o modelo das mulheres de Tehuana, veste-se, penteia-se e fala como elas.
Diego é o ogre (assim o designava Frida), a sua revolução é individualista, oscila entre a fé nos E.U e a União Soviética. Ele é colérico, violento na crítica, o monstro sedutor, oscila entre a acção e a crítica, a aventura, o poder e o dinheiro. Ela é a simplicidade, a determinação, a solidão, o amor abnegado. No seu diário escreve:
Diego, começo
Diego, construtor
Diego, minha criança
Diego, meu noivo
Diego, pintor
Diego, meu amante
Diego, meu marido
Diego, minha mãe
Diego, meu pai
Diego, meu filho
eu
universo
Diversidade na unidade
Mas porque eu digo Meu Diego
Ele nunca será meu. Ele só pertence a si próprio"

Kivi

quinta-feira, agosto 06, 2009

Leituras de Verão (ou a velhice, a morte e a violência)

Para contrariar a ideia das "leituras leves" para o Verão, para as minhas (mini)férias escolhi temas um bocado pesadotes. Começando com a velhice:

Philip Roth - Exit Ghost (O Fantasma Sai de Cena)

Um escritor de 70 anos, deixado impotente e incontinente por uma operação à próstata, vive isolado do mundo há mais de 10 anos, por opção própria. Um dia, de forma impulsiva, decide regressar a New York para se submeter a uma nova intervenção cirúrgica que lhe poderá (não há garantias) permitir recuperar pelo menos a continência.
E de repente é como se tivesse regressado à vida, a tudo o que deixou para trás numa tentativa de se proteger e, embora saiba que é um erro, decide ficar em NY mais algum tempo e acaba por se expôr a contactos para os quais já não está preparado e não tem quaisquer defesas: estar na mesma sala com uma mulher; discutir com um jovem escritor determinado; viver no mundo actual. Neste confronto entre ele e o mundo, é evidente quem é que vai sair magoado.
A partir de metade do livro vamos lendo alternadamente o que realmente acontece e os diálogos que ele escreve quando chega a casa, tal como poderiam ter acontecido.
Esta é uma viagem ao mais íntimo da fragilidade humana, pela mão do mesmo Philip Roth que nos deu The Dying Animal (O Animal Moribundo), que acabei de revisitar na excelente adaptação cinematográfica Elegy (filme que aproveito para recomendar).


Christopher Belshaw - Annihilation:
The Sense and Significance of Death


O último livro deste filósofo contemporâneo (que também editou 12 Modern Philosophers, uma boa introdução a alguns dos nomes mais importantes da filosofia contemporânea de língua inglesa, mas que inexplicavelmente não inclui o meu filósofo favorito, Daniel C. Dennett), não é um livro pesado nem deprimente, ao contrário do que possa parecer.
O autor começa por analisar o que é a morte em geral. Antes de mais, é um processo biológico. O autor apresenta a sua própria definição: a morte é "a perda irreversível de funcionamento do organismo como um todo". Mas depois aparecem complicações: o que é um organismo? Uma semente, um fruto, um órgão, as células do nosso corpo, será que podemos dizer que estas coisas estão vivas? Pode-se deixar de existir sem morrer? As bactérias fazem-no todos os dias, quando se dividem. E quanto a irreversível? Uma paragem cardio-respiratória antigamente era sempre irreversível porque tecnologicamente não era possível reanimar essas pessoas, mas agora já é. Então passamos a considerar que a pessoa morre só quando falham os esforços para a reanimar. Então a definição de morte varia com a tecnologia disponível, ou variam apenas os critérios pelos quais conseguimos identificá-la?
A parte mais interessante do livro não é sobre estas questões de definição, mas sim as tentativas de resposta à pergunta: a morte é uma coisa má? É certamente mau para as pessoas próximas, que continuam vivas e vão sofrer psicologicamente com a perda, mas e para o próprio? E se considerarmos que é má para a pessoa que morre, é má em que sentido? Para os Epicuristas, a morte não podia ser boa nem má, uma vez que "quando ainda somos, a morte ainda não chegou; e quando chega, já não somos". De facto, embora pareça intuitivamente que a morte é uma coisa má, não é fácil explicar em que medida é que ela prejudica o indivíduo que morre, uma vez que assim que a pessoa morre já nada de bom ou mau lhe pode acontecer. Podemos no entanto, sem qualquer dificuldade, considerar que a morte, na maior parte dos casos, vai contra o nosso interesse em permanecermos vivos, priva-nos de boas experiências que poderíamos vir a ter, e impede-nos de prosseguirmos os nossos planos para o futuro, portanto prejudica-nos.
Estas e muitas outras questões, algumas reais (o coma, o estado vegetativo persistente, etc), outras baseadas em cenários hipotéticos, são esmiuçadas por Christopher Belshaw, que comenta também as opiniões de outras pessoas que escreveram sobre o tema. Achei um livro muito estimulante, e embora não concorde com todas as opiniões do autor, fez-me repensar as minhas ideias, que eu achava que estavam tão bem definidas...


Jonathan Gotschall - The Rape of Troy: Evolution, Violence, and the World of Homer

Jonathan Gotschall propõe-se revolucionar os estudos literários trazendo para esta área em que já quase tudo foi dito, uma ferramenta ainda muito pouco (correctamente) aproveitada pelas humanidades: a biologia. Mais especificamente, a psicologia evolutiva, que ajuda a explicar algumas facetas do comportamento humano com base no seu significado evolutivo (por exemplo, a nossa preferência por alimentos hipercalóricos era muito vantajosa para os nossos antepassados na pré-história, e consequentemente ainda temos essa propensão, embora actualmente só nos prejudique).
Neste caso em particular, o autor debruça-se sobre a Ilíada e a Odisseia, épicos que trazem à luz a vida destas pessoas que viviam num tempo bem mais violento que o nosso, em que dos homens era esperado que prezassem acima de tudo a guerra e das mulheres esperava-se modéstia, fidelidade e que parissem muitos filhos.
A uma certa tendência masculina para a agressividade e para a competição com outros homens juntam-se outros factores, como o baixo número de mulheres disponíveis (devido a práticas culturais como o infanticídio e a poligamia), para gerar uma situação de guerras quase constantes, de insegurança e instabilidade permanentes. As populações estavam constantemente em risco de serem atacadas por populações vizinhas, o que geralmente significava a morte para todos os homens e a escravatura para as mulheres e crianças. Estas condições de vida por sua vez influenciavam as escolhas que as pessoas faziam mediante as (poucas) alternativas que tinham.
Um estudo sobre literatura que é ao mesmo tempo um estudo sobre os gregos e a vida das pessoas na antiguidade que é ao mesmo tempo um estudo sobre a natureza humana.
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Aproveito para acrescentar que os últimos dois livros que referi foram comprados na Livraria Leitura, no Porto, que podia ser melhor mas que ainda assim sempre vai tendo algumas novidades interessantes e que não se encontram na FNAC.

domingo, maio 17, 2009



A Solidão dos Números Primos
Paulo Giordano

Dois jovens que sofreram um episódio traumático na sua infância vêm na adolescência a cruzar acidentalmente as suas vidas e a ficaram próximos, sem todavia conseguirem unir-se. Sendo o autor um jovem doutorado em Física, a sua formação científica pontua este seu romance, orientado que é pela metáfora dos números primos e dos primos gémeos. É assim que escreve “São pares de números próximos um do outro, aliás quase próximos, pois entre eles existe um número par que os impede de se tocarem realmente…números, por exemplo, 11 e 13, 17 e 19, 41 e 43…descobrem-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado feito apenas de cifras e nota-se o pressentimento angustiante de que os pares encontrados até aí foram um facto acidental, cujo verdadeiro destino é o de ficarem sozinhos…”Alice e Mattia vivem também a sua solidão e com registos de desadaptação diferenciada, ela procurando atenção, ele fugindo de qualquer contacto social. Estão tão próximos, sós e perdidos, mas não o suficiente para se tocarem. É uma história muito original, que regista episódios ocorridos na infância que normalmente são ocultados e que atravessa os tormentos da adolescência: a procura incessante da aceitação, a rejeição da imagem física, a somatização da ansiedade no corpo mutilado, a anorexia, etc. Depois é um livro que está bem escrito, sugestivo e que se lê muito bem. Gostei.

Kivi